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Assad mantém observadores da ONU em gabinetes enquanto ataca rebeldes

Grupo de enviados aguardava liberação de veículos e autorização oficial para missão, enquanto oposição síria denunciava violação do cessar-fogo

Lourival Sant'Anna. Enviado Especial, O Estado de S. Paulo,

16 de abril de 2012 | 20h59

DAMASCO -  A missão avançada dos observadores da ONU espera sinal verde do governo sírio para monitorar o cessar-fogo no país, conforme resolução do Conselho de Segurança, aprovada no sábado. A equipe de cinco militares, que inclui o capitão de mar e guerra Alexandre Feitosa, do Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil, chegou a Damasco na noite de domingo e ficou ontem em reuniões com civis e militares no Ministério das Relações Exteriores.

Até ontem, dia em que opositores relataram o acirramento dos bombardeios do Exército a focos rebeldes, o grupo de observadores não tinha o necessário para o trabalho: veículos, escolta, rádios de comunicação e autorização para movimentar-se pelo país. "Ficaram de nos ligar e dar uma posição", disse Feitosa ao Estado, ao sair de uma reunião com dois generais sírios. "Colocamos as nossas necessidades para cair em campo e verificar o que está acontecendo."

O brasileiro lembrou que a resolução prevê que já amanhã os observadores devem fazer um primeiro relatório sobre as condições de trabalho no terreno, para que o Conselho possa aprovar nova resolução, ampliando o contingente para 250 a 300 militares. A primeira resolução prevê a vinda de 30. Os outros 25 começaram a chegar ontem, com a vinda de um oficial suíço.

Responsável pelo planejamento da segurança da missão, Feitosa enfatizou que os militares, pertencentes ao Departamento de Operações de Manutenção da Paz (DPKO) da ONU não pretendem fazer nada que atente contra a "soberania" da Síria. "Tudo vai ser coordenado com o governo." As localidades prioritárias que eles desejam visitar são Douma, 26 km a nordeste de Damasco, Hama e Homs, ambas no centro-oeste do país.

O repórter do Estado esteve em Douma na sexta-feira, e passou por sete barreiras militares na entrada e saída da cidade, apoiadas por dois tanques, três veículos blindados e cinco ônibus de transporte de tropas do Exército. O plano de paz apresentado pelo mediador da ONU e da Liga Árabe, Kofi Annan, e acatado pela Síria, inclui a retirada das tropas e de armamentos pesados do entorno das cidades. É o cumprimento desse plano que o DPKO vem averiguar. Ativistas citados pelas agências de notícias afirmaram que as forças do governo dispararam morteiros contra bairros de Homs no fim de semana.

"Aguardamos o telefonema ansiosos", disse o capitão de mar e guerra (equivalente a coronel) brasileiro. "Temos de saber o que vamos fazer amanhã (hoje) cedo." Ele descreveu as conversas com os representantes sírios como bastante "amigáveis", mas ressaltou que esse discurso precisa agora traduzir-se em "ações".

A mesma equipe avançada esteve na Síria entre os dias 5 e 10, quando concluiu que precisava do respaldo de uma resolução da ONU para continuar atuando no país. Aprovada por unanimidade, foi a primeira sobre a Síria que contou com o voto favorável da Rússia e da China. Além do brasileiro, a equipe é formada por um argentino, um marroquino, um belga e um finlandês, todos com patentes equivalentes a tenente-coronel ou coronel.

"É responsabilidade síria garantir a liberdade de acesso e de movimento (dos observadores) dentro do país", declarou ontem o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon. "Eles devem ter permissão para se mover livremente a quaisquer lugares onde sejam capazes de observar essa cessação da violência."

No domingo, uma fonte militar síria, citada pela agência oficial Sana, havia dito que as forças do regime impediriam a "escalada histérica" das atividades do que chamam de "grupos terroristas". Hoje o país celebra o Dia da Independência. Especula-se que o presidente Bashar Assad discurse em público. Havia um clima de tensão ontem em Damasco e várias barreiras militares foram erguidas nas ruas.

As forças de segurança estão em estado de alerta, aparentemente temendo atentados a bomba como os que ocorreram em Damasco nos dias 23 de dezembro e 6 e 17 de janeiro. O Ministério da Informação, que já autorizou a ida do Estado a Deraa, 100 km ao sul de Damasco, onde começou a rebelião há 13 meses, determinou que a viagem não pode ser feita hoje.

Homs. Ativistas disseram ontem que o governo atacou rebeldes em vários pontos do país. "O cerco não parou nem um minuto desde hoje (ontem) de manhã. Há prédios sob fogo agora", afirmou à AP o dissidente Tarek Bedrakhan, do bairro Khaldieh, em Homs. "Esperamos que os observadores possam vir para Homs logo. Se as coisas continuarem assim, não restará nada que possa ser chamado Homs", disse. Grupos de oposição registraram quatro mortes em Homs e na vizinha Qusair, seis em Hama e quatro em Idlib, no norte.

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