Assad nega participação em massacre e diz que Síria enfrenta uma 'guerra'

O presidente da Síria, Bashar Assad, apareceu ontem no Parlamento para realizar um discurso - transmitido pela rede de TV estatal - no qual negou qualquer responsabilidade sobre o massacre de Hula, que deixou 108 mortos há uma semana. Assad disse que "nem monstros" conseguiriam fazer algo desse tipo e voltou a culpar "poderes externos" e "terroristas" pela "guerra contra seu país".

DAMASCO, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2012 | 03h04

O desmentido de Assad ocorreu horas depois de o negociador da ONU e da Liga Árabe para a crise síria, Kofi Annan, ter acusado forças do líder sírio de "atrocidades" e "prisões arbitrárias" - sem mencionar explicitamente o caso de Hula.

Annan subiu o tom com o regime durante um pronunciamento que fez aos integrantes da Liga Árabe sobre sua visita a Damasco, na semana passada. Ele disse ter sido "muito direto" com Assad na reunião que os dois tiveram a portas fechadas.

"Assad deve dar imediatamente passos grandes e visíveis para mudar radicalmente o comportamento de seus militares e honrar os seus compromissos de retirar as armas pesadas (das cidades) e cessar toda a violência", afirmou Annan. "O importante não são as palavras que ele usa, mas a ação que ele toma."

Em seu pronunciamento de ontem, Assad qualificou de "abominável" o massacre de Hula e garantiu que suas forças não tiveram envolvimento na matança de civis. A versão do líder sírio vai contra as informações divulgadas pelo chefe da missão de observadores da ONU no país, Hervé Ladsous. A artilharia pesada do Exército sírio e a ação de milícias pró-Assad, conhecidas como shabiha ("fantasma", em árabe), teriam sido responsáveis pelas mortes no vilarejo. Dos 108 mortos, 47 eram crianças.

Estima-se que em 15 meses de crise, cerca de 12 mil sírios tenham sido assassinados. A oposição, que vem recebendo armas do exterior, está cada vez mais organizada e cresce o temor de que o país entre de vez em um estado de guerra civil. "O espectro da guerra civil, com uma temerária dimensão sectária, cresce a cada dia", disse o ex-secretário-geral da ONU.

Mesa de cirurgia. O presidente comparou sua atuação com a de um médico que realiza um operação de emergência em um paciente. Segundo Assad, oftalmologista formado na Grã-Bretanha, o cirurgião "não tem sangue nas mãos se estiver tentando salvar a vida do operado". "Nós culpamos o médico ou o agradecemos por ter salvo o paciente?", questionou o ditador diante do Parlamento.

"Nem sequer monstros poderiam levar adiante (os crimes) que vimos, especialmente o massacre de Hula. Não há palavras em árabe para descrever essa tragédia", continuou. "Hoje, estamos defendendo uma causa e um país. Não fazemos isso porque gostamos de sangue. Uma batalha nos foi imposta à força e o resultado é esse."

Assad discursou diante de parlamentares recém-eleitos sob uma nova Constituição - a votação não foi acompanhada por observadores independentes. O presidente afirmou que o boicote da oposição às eleições demonstra que a crise síria tem por base o "terrorismo e não vontade de reforma política".

A Arábia saudita rejeitou a acusação feita pelo presidente da Síria de que o conflito no país é resultado de influência exterior. O ministro das relação Exteriores saudita disse que Assad tenta ganhar tempo ao dizer que aceita as exigências da ONU mas não as implementando. / REUTERS e NYT

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