REUTERS/SANA
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Assad pode arrastar Rússia para atoleiro

O que o presidente russo Vladimir Putin fará agora, depois de enviar um número limitado de aviões e algumas unidades militares para a Síria com o objetivo de aumentar o apoio ao presidente sírio Bashar Assad, mostrará o que aprendeu com a desastrosa invasão da União Soviética no Afeganistão, em 1979.

Walter Pinkus, The Washington Post

10 Outubro 2015 | 02h02

Por outro lado, as ações do presidente americano Barack Obama na Síria demonstram que, no Iraque e no Afeganistão, ele assimilou as lições que os EUA deveriam ter aprendido há quase 40 anos no Vietnã.

"A não ser que as partes se reúnam para acertar alguma forma de convivência, não haverá grau de envolvimento militar dos EUA que permita solucionar o problema", disse Obama, ao falar do que aprendeu das experiências anteriores.

E advertiu os que exigem um papel mais ativo das forças armadas americanas na Síria: "Acabaremos fazendo muito pouco ou não fazendo a menor diferença; desse modo, perderemos a credibilidade, ou nos encontraremos mergulhados cada vez mais numa situação insustentável".

É por isso que Obama previu que "a tentativa da Rússia e do Irã de apoiar Assad e tentar pacificar a população só contribuirá para que eles afundem num atoleiro, e então fracassarão".

Evidentemente, os críticos de Obama não veem a situação dessa maneira. Num discurso no Senado, o senador John McCain afirmou que a política do governo Obama na Síria "confundiu o excesso de cautela com a prudência e substituiu o risco implícito numa ação com os perigos da falta de ação".

E acrescentou: "Vladimir Putin acaba de entrar no naufrágio da política desse governo no Oriente Médio".

Mas é a política síria de Putin que agora enfrenta o naufrágio. Como aconteceu em 2014, quando Putin apoiou o então presidente da Ucrânia, Viktor Yanukovich, que acabou expulso do poder, o líder russo tenta manter no poder outro inevitável perdedor.

O apoio de Moscou ao governo ditatorial da família Assad na Síria remonta à Guerra Fria, quando Damasco se aliou à URSS. Em 1971, Hafez Assad, pai do atual presidente, chefiou um golpe e tomou o controle do governo sírio, assinando um pacto de segurança com Moscou. Em troca, Assad concedeu aos soviéticos uma base naval em Tartus, até o presente momento o único porto de Moscou no Mediterrâneo.

Conflito. Desde a revolta contra o regime de Assad, iniciada na primavera de 2011, os americanos se ativeram à afirmação de Obama naquela época: "Chegou o momento de o presidente Assad deixar o poder". Menos divulgado foi o que ele disse imediatamente em seguida: "Os EUA não podem impor, e não imporão, essa transição à Síria. Cabe ao povo sírio escolher os próprios líderes e nós ouvimos o seu forte desejo de que não haja uma intervenção externa em seu movimento".

No entanto, Putin apoiou desde o início o regime de Assad e a Rússia bloqueou as duas primeiras resoluções da ONU - em maio e junho de 2011 - que condenavam o governo sírio pelo uso da força bruta contra sua própria população civil. Desde então, a Rússia continuou fornecendo assessores militares e armas ao regime sírio, como helicópteros que usam bombas de fragmentação para atacar os seus alvos.

Apesar da ajuda, o regime de Assad vem perdendo terreno para as unidades militares dos rebeldes, entre as quais se encontram grupos sunitas e jihadistas pró e contra os americanos - como o Estado Islâmico e combatentes favoráveis à Al-Qaeda.

No início de setembro, segundo o Instituto de Estudos da Guerra (ISW na sigla em inglês), o regime perdeu o controle de grande parte do território no noroeste do país, onde se encontra não apenas a base da família Assad, mas também a base naval russa.

Um problema para Assad é que o exército sírio sofre de uma "persistente escassez de efetivos em razão da extensão, dos atritos e da evasão endêmica dos recrutas, o que leva cada vez mais o regime a depender de grupos que combatem em nome dos iranianos, como o Hezbollah libanês," informou o ISW. A Síria é 70% sunita, enquanto Assad e seus colegas nos mais altos escalões do poder são alauitas, um ramo do Islã xiita.

O potencial colapso militar do único aliado árabe de Moscou forçou Putin a entrar com aviação e forças terrestres para proteger Assad.

Finanças. "Putin teve de ir à Síria, não em razão de sua força, mas por sua fraqueza, porque o regime do seu cliente Assad estava se esboroando e seria insuficiente para ele limitar-se a enviar armas e dinheiro", concluiu corretamente Obama.

Apesar do que afirmam os críticos do presidente americano, Putin não está agindo em razão de sua força. O que não teve muita publicidade nos Estados Unidos são os problemas financeiros internos de Putin.

A queda dos preços do petróleo, além das sanções impostas pelos EUA e pela Europa em consequência da tomada da Crimeia e da ofensiva militar no leste da Ucrânia, deverão reduzir em 3% o Produto Interno Bruto da Rússia este ano.

Estranhamente, Donald Trump é talvez o único pré-candidato às eleições presidenciais dos EUA pelo Partido Republicano que entendeu corretamente a questão, quando, no programa Meet the Press da NBC, previu: "Não estou apenas justificando Putin. Mas vocês vão ver, ele poderá ficar atolado por lá. Ficará lá. Gastará uma fortuna. Terá de pedir que o tirem de lá". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

WALTER PINKUS É COLUNISTA DO THE WASHINGTON POST

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