Assad reprime ato após visita da ONU

Monitores das Nações Unidas testemunham protesto na periferia de Damasco que é reprimido pelas forças de segurança do regime sírio

LOURIVAL SANTANNA , ENVIADO ESPECIAL / DAMASCO, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2012 | 03h07

Tropas sírias abriram fogo contra manifestantes que rodeavam os veículos da equipe avançada de observadores das Nações Unidas em Arbin, na periferia de Damasco. Moradores que tentavam mostrar cartazes com informações sobre a repressão e pedir armas para os rebeldes foram alvo de rajadas de metralhadoras, ferindo 20 pessoas, enquanto o comboio com os cinco militares da ONU partia em disparada, segundo ativistas.

A ida dos observadores não foi anunciada previamente, mas os moradores desconfiaram porque os tanques foram retirados das imediações de Arbin. O plano de paz do mediador da ONU e da Liga Árabe, Kofi Annan, prevê a retirada de armamento pesado e de tropas dos arredores das cidades. Rapidamente, eles confeccionaram cartazes com a lista dos 34 moradores mortos desde o início da rebelião, há 13 meses.

Vídeos mostram centenas de pessoas perto do comboio da ONU, levando bandeiras sírias e gritando slogans contra o presidente Bashar Assad. Um homem grita ao microfone em uma caminhonete com grandes caixas de som: "Bashar, não vamos nos ajoelhar." Um cartaz aparentemente colado num dos três jipes do comboio diz: "O açougueiro continua matando; os observadores, observando, e o povo continua sua revolução. Só nos curvamos perante Deus."

De acordo com um ativista citado pela Associated Press, os manifestantes seguiram em passeata na direção de uma praça, na qual havia um ato de governistas, incluindo um grupo de "shabiha", como são chamados homens à paisana que atuam como milícias em defesa do regime.

"Começamos a caminhar ao lado dos observadores, pensando que eles iam nos proteger, mas os shabihas começaram a disparar contra nós, mesmo quando os carros dos observadores estavam na frente da passeata", disse o ativista. Depois que a equipe da ONU foi embora, os agentes deram voltas de carro pela área atirando e 20 pessoas ficaram feridas, acrescentou.

O chefe da missão, o coronel marroquino Ahmed Himiche, não quis comentar o incidente, explicando que a equipe faz relatos apenas à ONU. "Houve manifestações", declarou ao Estado o capitão de mar e guerra brasileiro Alexandre Feitosa, encarregado do planejamento da segurança da equipe avançada.

Pela primeira vez os observadores reuniram-se com representantes da oposição em três localidades perto de Damasco. "Tudo correu bem", continuou o oficial brasileiro. "Nosso trabalho é estabelecer ligação com as partes, para que o cessar-fogo seja respeitado. Estamos progredindo."

A equipe avançada continuará visitando hoje locais próximos a Damasco, enquanto espera permissão das autoridades sírias para ir às cidades mais afetadas pelo conflito, como Homs e Hama, no centro-oeste, e Idlib, no noroeste do país.

Eles negociam com as autoridades locais a montagem de postos de observação, que terão inicialmente um contingente de 30 militares do Departamento de Operações de Manutenção da Paz da ONU, segundo resolução do Conselho de Segurança aprovada no sábado.

Uma nova resolução, que pode ser votada ainda esta semana, ampliará o contingente para 300 observadores ou mais. Segundo a agência oficial Sana, atentados a bomba em estradas em Idlib e Alepo mataram ontem dez militares e um civil.

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