Assad rompe silêncio e pede 'guerra a traidores'

Ditador volta à cena após 6 meses com promessa de esmagar 'terroristas' aliados ao Ocidente e plano de diálogo com oposição 'que não traiu a Síria'

DAMASCO, O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2013 | 02h10

O ditador da Síria, Bashar Assad, rompeu ontem seis meses de silêncio com uma promessa de esmagar os "criminosos assassinos" e "aliados da Al-Qaeda" que estariam por trás da insurreição na Síria. Assad voltou a falar numa transição negociada com opositores "que não traíram a nação", a qual incluiria uma reforma constitucional e eleições - sem que ele deixe o poder.

Foi a primeira vez que o líder sírio falou publicamente desde junho, quando concedeu uma longa entrevista a uma rede de TV russa aliada ao Kremlin. Assad discursou no palco da Ópera de Damasco para uma plateia lotada de partidários que várias vezes o interrompiam com gritos em defesa do regime. Horas antes do pronunciamento, parte da internet saiu do ar na Síria.

"Estamos combatendo uma agressão externa que é mais perigosa do que qualquer outra, pois ela usa (sírios) para matarem uns aos outros", disse Assad, diante de um mural em que retratos de sírios formavam uma enorme bandeira nacional. "Trata-se de uma guerra entre a nação e seus inimigos, entre o povo e assassinos criminosos."

O ditador propôs um novo plano de mudança na Constituição e eleições, mas recusou qualquer negociação com grupos que pegaram em armas contra Damasco. "Não rejeitamos o diálogo, mas com quem devemos conversar? Com os extremistas que não falam nenhuma língua a não ser a dos assassinatos e do terrorismo? Devemos ter um diálogo oficial com um fantoche criado pelo Ocidente?".

Líderes da oposição síria imediatamente recusaram o plano proposto por Assad. "Essa iniciativa apresentada (pelo ditador, prevendo uma mudança na Constituição e eleições) é excelente e só falta um aspecto crucial: que ele renuncie", afirmou Kamal Labwani, político secular veterano da dissidência de Damasco e integrante da Coalizão Nacional Síria, grupo que reúne várias forças anti-Assad.

Isolado. O ditador sírio também afirmou que não receberá "ordens, mas apenas conselhos" de autoridades estrangeiras - uma indireta contra os esforços de mediação do emissário da ONU e da Liga Árabe, o argelino Lakhdar Brahimi.

O discurso do ditador sírio irritou países da região e do Ocidente que apoiam a oposição síria. Em encontro com o chanceler do Brasil, Antonio Patriota, em Izmir, na Turquia, o ministro das Relações Exteriores de Ancara foi irônico: "Parece que (Assad) andou trancado em seu quarto e por meses ficou lendo relatórios de inteligência entregues por quem quer lhe bajular".

Até o início da insurreição na Síria, em março de 2011, a Turquia era um dos países mais próximos do regime Assad. Quando Damasco respondeu aos protestos por maiores liberdades com uma violenta repressão, o governo turco rompeu relações. Hoje, centenas de milhares de refugiados sírios vivem na Turquia.

Para o Departamento de Estado dos EUA, Assad "tentou mais uma vez se agarrar ao poder" com o discurso. / REUTERS e NYT

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