Assad tenta conter avanço rebelde com bombardeio à segunda cidade da Síria

Violência síria. Insurgentes tomam parte histórica e se aproximam do centro de Alepo, polo econômico do país, enquanto forças leais a ditador reconquistam sul de Damasco; aliada de regime sírio, Rússia faz alerta a regime contra o uso de armas químicas

ANDREI NETTO, ENVIADO ESPECIAL, ANTAKYA, TURQUIA, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2012 | 03h02

Intensos bombardeios do regime de Bashar Assad, que teriam envolvido caças, não impediram que os rebeldes ganhassem ontem terreno em Alepo, segunda cidade e capital econômica da Síria. Dois helicópteros e dois tanques foram destruídos perto do centro, onde um quartel-general rebelde foi montado em uma escola. Em Damasco, a situação é inversa, com as tropas de Assad retomando o controle.

A intensificação do conflito foi testemunhada por repórteres dos jornais Le Monde e Le Figaro, da França, e da rede de TV britânica BBC, que estão no centro histórico ou na periferia de Alepo. Eles relatam que três blindados T-55 e caminhões BMP de transporte de tropas entraram na metrópole trazendo reforços para tentar recuperar bairros sob controle insurgente, como Salaheddine, Bab al-Hadid, Soukkari, Hanano e Sakhour, sempre com o apoio de helicópteros. Há testemunhos de que duas dessas aeronaves foram derrubadas ontem pelos rebeldes, que destruíram ainda dois tanques e tomaram um terceiro.

Segundo a BBC, ataques com caças também foram lançados pelo regime contra núcleos rebeldes. O Estado conversou por Skype com um ativista em Alepo. "A situação evolui rapidamente e o Exército Sírio Livre (ESL) está chegando ao centro, mas ninguém consegue ter uma visão do que está acontecendo em toda a cidade", disse ele.

Os confrontos na estratégica região noroeste da Síria intensificam-se a cada dia, em meio à contraofensiva das forças leais a Assad e ao avanço dos rebeldes sobre Alepo. Os insurgentes já controlaram regiões nas imediações do centro da cidade. Em Damasco, a situação é oposta.

Há dois dias, as tropas de Assad vêm recuperando o controle de bairros que estiveram nas mãos dos insurgentes na semana passada. Duas dessas regiões, Qadam e Aassali, teriam concentrado as operações ontem. Nos últimos dias, os bairros de Mazzeh, Barzeh e Midan já haviam sido recuperados pelas tropas leais a Assad. As informações são confirmadas pela ONG de oposição Observatório Sírio de Direitos Humanos, com sede em Londres.

Também houve registros de combates em Deraa, no sul, e em Homs, cidades arrasadas nos 17 meses de repressão. Em todo o país, 80 pessoas morreram ontem, entre civis, rebeldes e militares, segundo a organização.

"Precisamos trabalhar com a oposição, pois mais e mais território tem sido conquistado. No fim, haverá uma zona segura dentro da Síria que poderá servir de base para outras ações dos opositores", disse ontem a secretária de Estado, Hillary Clinton. O governo americano avalia que nos próximos meses a oposição controlará uma ampla área do país.

Com o aumento dos combates, a ameaça síria de uso de armas químicas contra uma intervenção estrangeira, feita na segunda-feira, ainda repercute. Ontem foi a vez do chanceler da Rússia, Sergei Lavrov, advertir seu aliado sírio a não se valer de armas de destruição em massa. "Queremos sublinhar que a Síria ratificou em 1968 o protocolo de Genebra de 1925 que proíbe o uso de gáses asfixiantes, venenosos ou de outros tipos", afirmou.

Turcos. Na região da fronteira com a Turquia, parte da população reprova o apoio explícito de Ancara e a transferência de armas à insurgência em luta pelo controle do nordeste da Síria.

Em Antakya, na província turca de Hatay, o acesso aos campos de refugiados sírios, onde o Estado esteve ontem, foi fechado pelas Forças Armadas e o contato com jornalistas e fotógrafos foi proibido. Na cidade, parte da população está insatisfeita por ter seu cotidiano e economia abalados pelo conflito no país vizinho. O transporte de mercadorias de e para Alepo, por exemplo, foi quase paralisado.

Muçulmanos, em especial xiitas, mostram-se indignados com o premiê turco, Recep Tayyip Erdogan, acusado de favorecer a rebelião e permitir que seu território seja usado pela Arábia Saudita e pelo Catar para enviar armas para os rebeldes. "Erdogan está trazendo a guerra para dentro da Turquia", disse um funcionário do Aeroporto de Hatay, lamentando a crescente influência militar dos curdos na região. Shefik, jovem turco de origem síria, estudante de informática e originário de Antakya, diz não apoiar Assad, mesmo que seus primos sejam voluntários do regime na região de Alepo.

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