Assad usa 50 tanques contra rebeldes que tomaram subúrbios de Damasco

O Exército sírio lançou ontem uma ofensiva militar com 50 tanques e 2 mil soldados para retomar o controle de quatro subúrbios de Damasco. Desde a sexta-feira, Erbeen, Saqba, Hammouriya e Kfar Batna estão sob controle de grupos armados contrários ao ditador Bashar Assad. Segundo a oposição, pelo menos 29 dissidentes e 18 soldados morreram em diversos confrontos ontem.

DAMASCO, O Estado de S.Paulo

30 de janeiro de 2012 | 03h01

Os soldados entraram nos subúrbios a leste de Damasco, apoiados por tanques e outros veículos de combate. Alguns dos confrontos ocorreram a menos de quatro quilômetros do centro da capital. Segundo o Comitê de Coordenação Local (CCL), um grupo dissidente sírio, 29 pessoas morreram ontem, 12 delas em confrontos nos subúrbios de Damasco.

Tropas de Assad também sofreram baixas, em outras partes do país. De acordo com o Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH), ligada à oposição, 18 soldados morreram em dois ataques distintos organizados por rebeldes sírios na Província de Idlib, no norte do país.

Damasco, o centro de poder do regime, atravessou relativamente incólume os dez meses de protestos, mas as cidades próximas à capital, com uma população sunita conservadora, tornaram-se um dos focos de oposição à ditadura alauita. "É uma guerra urbana", disse à agência Reuters um ativista de Kfar Batna que não quis se identificar.

Segundo o OSDH, no final do dia os combates se espalharam para outros subúrbios. "Os confrontos são pesados", disse o diretor da ONG, Rami Abdul-Rahman. "As tropas de Assad conseguiram entrar em algumas áreas, mas têm enfrentado dura resistência em outras."

Ativistas ligados à oposição relataram que a principal dificuldade do Exército está em Saqba, onde rebeldes armados têm conseguido impedir o avanço das tropas do regime. O cenário é descrito como de guerra civil. Um dissidente relatou que as mesquitas locais foram transformadas em hospitais de campanha improvisados. O fornecimento de eletricidade foi cortado e o Exército impede que, em pleno inverno, a população civil tenha acesso a combustível para aquecimento.

Outro ponto de conflito é a cidade de Rankous, a 30 km de Damasco. Sitiado por tanques de Assad, o local tem sido bombardeado regularmente. Os combates mataram 33 pessoas na região nos últimos três dias. Desde a quinta-feira, quando o regime retomou com mais força a ofensiva contra a oposição, estima-se que mais de 150 pessoas tenham morrido no país.

Apoio curdo. Ainda ontem, na cidade iraquiana de Irbil, 200 membros de partidos do Curdistão sírio reuniram-se para discutir meios de apoiar a revolta contra Assad. Segundo Abdul Baqi Youssef, do Partido Unionista Curdo da Síria, o encontro serviu para formalizar a criação do Conselho Nacional Sírio Curdo, que vai coordenar com a oposição as ações contra o regime.

"É um bom começo para unificar os curdos e impulsionar a revolução rumo à derrubada de Bashar Assad", disse.

O líder político também pediu garantias para os curdos em um futuro governo democrático. A etnia forma 15% da população da Síria e diz sofrer discriminação por parte do regime.

O secretário-geral da Liga Árabe, Nabil Elaraby, viajou ontem para Nova York para defender o plano da entidade para uma transição na Síria no Conselho de Segurança da ONU.

Antes de partir, o diplomata se disse otimista em convencer Rússia e China a apoiar a proposta árabe. Os dois países, parceiros comerciais de Damasco, se opõem a qualquer sanção ao regime. "Estamos negociando com os chineses e os russos", afirmou.

Pressão. O governo francês, uma das vozes mais críticas ao regime sírio, divulgou ontem nota sobre os confrontos recentes no país. "A França condena vigorosamente a escalada dramática de violência na Síria, que levou a Liga Árabe a suspender sua missão de observadores", informou a chancelaria. "Dezenas de civis foram mortos nos últimos dias pela repressão selvagem do regime sírio. Os responsáveis devem responder por esses crimes."

No sábado, a Liga Árabe suspendeu por tempo indeterminado a missão de observadores da entidade na Síria. O grupo fazia parte de um acordo assinado entre a entidade e Assad para pôr fim à violência no país. Apesar de libertar centenas de presos políticos, a ditadura seguiu com a ofensiva contra os oposicionistas. / AP e REUTERS

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.