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Assalto a Moncada foi batismo de fogo do rebelde que viraria ícone

Fracassado o levante de 1953, Fidel foi poupado e expulso 2 anos depois; em 1956 ele voltaria para iniciar guerrilha

Roberto Lameirinhas, O Estadao de S.Paulo

20 de fevereiro de 2008 | 00h00

A tentativa de assalto ao Quartel Moncada, a segunda principal unidade militar da Cuba de Fulgêncio Batista, acabou em massacre. O grupo de cerca de uma centena de estudantes rebeldes da Universidade de Havana foi facilmente reprimido pelos soldados do ditador. Ao fim da batalha, naquele 26 de julho de 1953, os militares cumpriram a ordem do regime de não poupar os sobreviventes. Aproximadamente 80 rebeldes foram fuzilados sumariamente. Só os líderes da revolta foram aprisionados e levados para Havana como troféu de guerra - um erro do qual Batista se arrependeria anos depois.Entre os presos estavam o jovem advogado Fidel Castro Ruiz e um de seus irmãos, Raúl. A derrota em Moncada foi o batismo de fogo, que tornou internacionalmente conhecido, pelas cinco décadas seguintes, um dos mais controvertidos líderes do século 20.Mas a derrota humilhante em Moncada não levava ninguém a crer que Fidel pudesse comandar um movimento rebelde com alguma possibilidade de depor Batista. Menos ainda que ele pudesse deixar a prisão, conquistar simpatizantes para sua causa no exterior e tornar-se o líder autocrático de Cuba por quase cinco décadas. Fidel fez tudo isso e muito mais.Transformou-se na principal dor de cabeça da política externa dos EUA, pôs o mundo à beira de uma guerra nuclear nos anos 60 e manteve Cuba como o último reduto do marxismo-leninismo do Ocidente. Sua morte foi anunciada inúmeras vezes desde que os guerrilheiros comandados por ele marcharam sobre Havana, em 1º de janeiro de 1959.Segundo rumores consentidos por integrantes de seu regime - ou espalhados por eles -, sobreviveu a inúmeras tentativas de assassinato e conspirações para derrubá-lo do poder. Rumores são as principais fontes de seus biógrafos.Fidel sempre insistiu em manter reserva sobre sua vida pessoal. Era um de seis filhos de um rico produtor de cana-de-açúcar, cuja família tem origem na Galícia, região da Espanha. Seu irmão Raúl o acompanhou desde os primeiros anos da revolta contra Batista. Dos outros irmãos, Olga chegou a integrar-se à guerrilha castrista em Sierra Maestra; Ramón era apenas um simpatizante da revolução, mas não aderiu diretamente a ela; Lidia exilou-se no México enquanto Fidel combatia Batista, e Juanita abrigou-se na Embaixada do Brasil em Havana durante o período da revolução.Pelo menos dois de seus irmãos acabaram rompendo relações com Fidel depois do triunfo da guerrilha. Ramón, que cuidou da mãe até a morte dela, caiu em desgraça com o regime revolucionário ao protestar contra a expropriação das fazendas de cana-de-açúcar herdadas do pai. Juanita radicou-se na Flórida, onde se tornou militante dos grupos que faziam oposição radical a Fidel e o consideravam nada além de um déspota assassino.CARISMANem mesmo seus mais ácidos adversários, porém, lhe negavam o reconhecimento de seu talento para a oratória e de sua personalidade talhada para a conquista de simpatizantes ao redor do mundo. Para os ativistas de grupos de esquerda no exterior - quase sempre levados pela tietagem explícita -, Fidel se transformou em ídolo carismático, bem-humorado e "exemplo de governante voltado para o bem estar de seu povo".Não raras vezes, seus discursos se estendiam por mais de cinco horas. Num recorde, durante uma reunião do Partido Comunista, em 1989, falou por mais de 12 horas. Mesmo nos últimos anos, apesar da saúde abalada, mostrava-se pouco capaz de fazer um "breve pronunciamento" que realmente merecesse o adjetivo.O que se sabe e se sustenta com alguma documentação, transcendendo aos simples rumores, é que Fidel, ainda estudante da Universidade de Havana, casou-se com Ana Díaz-Balart - irmã de um dos ministros de Batista, Rafael Díaz-Balart. Da união, nasceu Fidelito, o primogênito de Fidel. Em 1955, apesar de ter sido sentenciado a 15 anos pelo ataque a Moncada, Fidel acabou indultado por Batista, sob a condição de que partisse de Cuba. Fidel foi para o exílio levando o filho. A mando do cunhado, porém, Fidelito foi seqüestrado no México e entregue aos cuidados da mãe, de quem Fidel se divorciara, também por pressão de Díaz-Balart.Ainda na prisão de Los Pinos, Fidel intensificou a troca de cartas apaixonadas com outra jovem bonita e rica - e casada - de Havana: Natalia Naty Revuelta. Algumas dessas cartas foram vendidas a jornais espanhóis em 1997 pela filha de Fidel com Naty, Aline Revuelta-Fernández. Aline rompera com o pai em 1996 e deixara Cuba acusando Fidel de ser um "ditador implacável". O marido de Naty era um cardiologista respeitado na ilha e criou Aline como se fosse sua própria filha.Diante da repercussão causada pela divulgação das cartas - melosas e de duvidoso, ou nenhum, valor literário -, Fidel deu à imprensa oficial cubana raríssimas declarações sobre sua vida afetiva, tema considerado tabu no país. Aos 70 anos, ele se dizia "um eterno apaixonado pelo sexo feminino". Descrevia-se também como um homem tímido, que se apaixonava com muita facilidade. "Ultimamente, de modo mais platônico", esclarecia. "Há amores mais curtos, mais longos, mais calmos, mas todos eles têm de ter paixão", completava. Sobre as cartas enviadas a Naty Revuelta, disse que a distância acabou tornando as mensagens mais adocicadas. "A distância sempre engrandece o amor e aquelas cartas foram escritas na prisão, com muito sofrimento."Do exílio no México, Fidel estendeu sua campanha para derrubar Batista aos EUA, enviando notas a jornais americanos - denunciando os crimes de Batista - e dando palestras em universidades. O líder rebelde pedia ajuda financeira e apoio político para uma grande revolução.O plano de invadir Cuba foi posto em prática em 1956, com o embarque, do México, do iate Granma, com 84 homens dispostos a derrubar Batista. O fracasso só não foi tão vexatório quanto o do assalto ao Quartel Moncada porque, desta vez, Fidel não se deixou prender. Aviões e navios de guerra de Batista interceptaram o iate quando se aproximava da costa cubana. Diz a lenda - mais um rumor - que, quando chegou a terra firme, com o grupo de guerrilheiros reduzido a frangalhos, Fidel pediu a Raúl que contasse quantos homens ainda tinham. "Onze", respondeu o irmão. "Então, Raúl, os dias da ditadura estão contados", teria replicado, convicto.O reagrupamento de suas forças, nas matas da Serra Maestra, levou vários meses. Além de Raúl, outros dois líderes guerrilheiros desfrutavam da plena confiança de Fidel: Camilo Cienfuegos e o argentino Ernesto Guevara - um jovem médico idealista e apaixonado por aventura. A esta altura, Batista oferecia uma polpuda recompensa, de 5 mil a 100 mil pesos, pela captura dos rebeldes. Uma nota, publicada pelo regime em jornais, especificava que o prêmio maior corresponderia à recompensa "pela cabeça de Fidel Castro".No início de 1958, quando a guerrilha Movimento 26 de Julho já intensificava seus ataques contra Batista, Fidel lançaria um dos mais ousados golpes propagandísticos da revolução. Às vésperas do Grande Prêmio de Cuba, os guerrilheiros castristas seqüestrariam, num hotel em Havana, o mais famoso piloto de automobilismo da época, o argentino Juan Manuel Fangio. No dia da corrida, Fangio estava desaparecido e a guerrilha anunciava o poder de seu movimento, desafiando o governo de Batista a encontrar o piloto. Depois, talvez numa clássica manifestação da síndrome de Estocolmo, o argentino disse ter sentido orgulho do "serviço prestado à revolução".

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