Assange queixa-se de vazamento de processo

Fundador do WikiLeaks critica duramente divulgação de relatório da polícia detalhando acusação de estupro que ele responde na Suécia

, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2010 | 00h00

Mais famoso "vazador" de informações do mundo, o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, irritou-se com a divulgação à imprensa britânica de um relatório da polícia sueca detalhando supostos crimes sexuais que ele teria cometido contra duas mulheres. Assange fez a queixa em entrevista ao jornal The Times, publicada ontem.

O relato de como o australiano - que revelou 250 mil telegramas secretos da diplomacia americana - teria "estuprado" duas mulheres em Estocolmo foi publicado domingo pelo The Guardian - o mesmo jornal que vem ajudando Assange a editar os segredos dos EUA em troca de acesso em primeira mão ao material.

Segundo o fundador do WikiLeaks, as informações sobre seu processo foram "publicadas de maneira seletiva". Ele condenou ainda o fato de os documentos terem sido entregues ao Guardian um dia antes da audiência que determinaria sua fiança.

O acesso às informações, completou o australiano, foi obtido "de maneira não autorizada". "O vazamento do relatório da polícia teve claramente o objetivo de prejudicar meu pedido de fiança. Ele foi calculado para aparecer na mesa do juiz naquela mesma manhã (da audiência)", protestou Assange na entrevista.

"Alguém em uma posição de autoridade obviamente queria me manter na prisão e tentou vender essas informações para outros jornais também."

A procuradoria sueca disse não saber como o relatório confidencial foi parar nas mãos dos repórteres. Ao final, a Justiça da Grã-Bretanha estipulou que a fiança seria US$ 310 mil.

Sob ameaça de ser extraditado para a Suécia, Assange foi libertado na semana passada após concordar com uma série de restrições. O australiano deve usar um localizador eletrônico preso ao seu corpo e permanecer na casa de Vaughan Smith, líder de uma rede de apoio ao WikiLeaks que mora no sul da Inglaterra.

A Justiça sueca quer interrogar Assange sobre dois relacionamentos sexuais que ele teve durante visita a Estocolmo. As duas mulheres o acusam de vários crimes, incluindo estupro, abuso e coerção. O fundador do WikiLeaks nega todas as acusações. Seus advogados afirmam que o caso tem por base relações sexuais "consensuais, mas desprotegidas" - Assange não teria usado preservativos. A Justiça sueca ainda não indiciou o australiano.

Segundo ele, há "evidências muito sugestivas" de que as duas suecas aceitaram acusá-lo por pressão política, dinheiro e vingança. Questionado pelo Times se ele era "promíscuo", Assange deu uma resposta direta: "Não sou promíscuo. Apenas gosto muito de mulheres."

Contra-ataque. O Guardian defendeu a cobertura do caso em editorial. "É raro um caso de crime sexual ser apresentado fora do processo judicial, como agora. Mas, ao mesmo tempo, é desconhecido um caso no qual o réu, seus advogados e partidários tenham atacado de modo tão veemente e pública as mulheres que estão no centro de uma acusação de estupro", rebateu o jornal.

Assange já havia afirmado em entrevista à BBC que um desejo de vingança estaria por trás de seus processos na Suécia. "(As duas mulheres) descobriram que eram, ao mesmo tempo, minhas amantes, que fizeram sexo sem proteção e, então, ficaram preocupadas com o risco de doenças sexualmente transmissíveis", disse. O advogado das duas, afirmou que suas clientes passaram por experiências similares com Assange e decidiram procurar a polícia para saber como proceder. Uma oficial concluiu que o australiano havia cometido crimes sexuais. / REUTERS

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