Assange vira mote para protestos britânicos

Em um café de esquina um casal brinda com champanhe. Jovens com paetês caminham para uma festa. Turistas passam com sacolas de grifes. Outros se detêm diante da exclusiva Harrods, para ver a vitrine que celebra a Olimpíada. Isso só até a próxima esquina, onde mascarados exibem cartazes de apoio a Julian Assange, fundador do site WikiLeaks, que hoje completa 61 dias na embaixada do Equador. Para boa parte deles, o australiano é só um pretexto para protestar.

AE, Agência Estado

19 de agosto de 2012 | 08h17

São 19 horas em Knightsbridge, um dos bairros mais nobres de Londres, um centro de compras, negócios e badalação que teve a rotina parcialmente alterado na quinta-feira, quando o Equador concedeu asilo a Assange. Com discursos contra a "opressão do Estado e da polícia britânica", os cortes dos benefícios sociais promovido pelo governo conservador, o aumento do preço da universidade e o "imperialismo das grandes potências", ativistas são uma lembrança das contradições da sociedade britânica, aprofundadas pela grave recessão econômica em que o país está mergulhado. E uma amostra dos desafios que o premiê David Cameron terá de enfrentar após o clima de festa que contaminou a Grã-Bretanha durante a Olimpíada.

"Não diria que somos simpatizantes de Assange, porque a maior parte das pessoas aqui está pouco ou nada interessada na figura dele em particular", disse Tom Charles, editor de uma revista de apoio ao movimento palestino e professor. De fato. São muitos os motivos elencados pelos manifestantes para justificar sua presença na frente da representação do Equador. Há os que apoiam a proposta do site por acreditar que ele expõe o segredo das grandes potências e "daqueles que estão no poder" - como Charles.

Muitos revoltaram-se com a ameaça do governo britânico de entrar na embaixada para capturar Assange - caso do aposentado Daniel Ahern, do historiador Farhan Rasheed e de um punhado de latino-americanos. Outros são anarquistas e estão ali porque são contra o governo conservador, o Estado, a polícia, o champanhe e os paetês. Mas o que todos compartilham é um grande descontentamento econômico e político ligado à crise e às medidas de austeridade adotadas por Cameron.

Para evitar o colapso das contas do Estado, nos últimos anos os cortes orçamentários foram drásticos na Grã-Bretanha, atingindo desde as isenções de impostos dos aposentados - uma medida que a imprensa local apelidou de "imposto da vovó" - até a folha de pagamento dos municípios. Bibliotecas públicas foram fechadas e os benefícios sociais para desempregados, mães solteiras, estudantes e até portadores de necessidades especiais foram reduzidos ou submetidos a regras mais rígidas.

Para Francisco Panizza, cientista político da London School of Economics, a decisão do governo de não conceder salvo-conduto a Assange para deixar o país e ameaçar entrar na embaixada do Equador para capturar o ativista foi em parte uma tentativa de criar uma "cortina de fumaça" para evitar a discussão sobre esse problema de fundo da crise, agora que a Olimpíada terminou. "Nesse tema de Assange, a maior parte dos britânicos ou apoia o governo ou é completamente indiferente a essa questão", disse Panizza. "O governo não tinha muito a perder ao ameaçar uma invasão da embaixada e, se tivesse sorte, ainda poderia usar a imagem de um ''inimigo externo'' para evitar o debate sobre questão econômica."

A Grã-Bretanha aprovou a extradição de Assange para a Suécia, onde ele morou no passado e é acusado de abuso sexual de duas funcionárias do WikiLeaks. O ativista diz que essa campanha para levá-lo aos tribunais tem motivação política e ele terminaria sendo extraditado para os EUA, onde poderia ser julgado por espionagem - crime punido até com a pena de morte.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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