Daniel Chan/AP
Daniel Chan/AP

Assassinato acende alerta sobre arsenal químico de Kim

Morte de meio-irmão do líder norte-coreano com agente VX mostra resposta que regime norte-coreano pode dar caso seja atacado 

O Estado de S. Paulo

25 Fevereiro 2017 | 05h00

KUALA LUMPUR - A revelação da polícia da Malásia de que Kim Jong-nam, meio-irmão do líder norte-coreano, Kim Jong-un, foi assassinado com uso de uma arma química reacendeu o alerta no mundo sobre os arsenais não convencionais à disposição de Pyongyang. Ele foi morto no dia 13 por duas mulheres que espirraram o agente nervoso VX em seu rosto no aeroporto de Kuala Lumpur. 

Caso se confirme que cidadãos norte-coreanos estão por trás do crime, o uso do agente VX levanta várias perguntas: Pyongyang usou o ataque para lembrar ao mundo que possui um arsenal de armas perigosas? Ou foi apenas uma tentativa de impedir a prisão de um assassinato ousado em um dos mais movimentados aeroportos do mundo?

“Ao usar o VX em um aeroporto internacional no coração da Ásia, a Coreia do Norte enviou uma clara mensagem de que pode atacar seus inimigos em qualquer parte do mundo”, afirmou Rohan Gunaratna, especialista em terrorismo da escola de estudos internacionais S. Rajaratnam, em Cingapura. “Demonstra também qual seria a resposta norte-coreana no caso de algum ataque ao país”.

O programa nuclear da Coreia do Norte tem sido a maior preocupação dos EUA e seus aliados. O diálogo, hoje em ponto morto, visando a coibir o programa nuclear, não tratava de armas biológicas e químicas.

“O uso do VX nos lembra o quão grave é a ameaça nuclear da Coreia do Norte, mas que também outras ameaças são graves, incluindo as armas bioquímicas e virtuais, que se inserem no grupo de armas de destruição em massa”, disse Duyeon Kim, da Universidade Georgetown. O chanceler da Coreia do Sul emitiu comunicado ontem expressando “choque” com o uso do VX.

O uso de arma química banida pelas convenções internacionais – das quais Pyongyang não é signatária – e em público deve intensificar os apelos para que a ONU coloque Coreia do Norte na lista de países patrocinadores do terrorismo.

A Coreia do Norte foi colocada pela primeira vez na lista depois de um atentado à bomba contra um avião sul-coreano em 1987, que matou as 115 pessoas a bordo. Os EUA retiraram o país da lista em 2008 como parte de um acordo pelo qual os norte-coreanos encerrariam seu programa nuclear, pacto que caiu no vazio depois dos testes com mísseis e armas atômicas realizados por Pyongyang.

Poderio. Uma gota do VX, ou cerca de 10 miligramas, pode ser fatal, mas as mulheres podem ter usado uma fórmula do agente adotada em campos de batalha, o que aumenta a segurança. Conhecido como VX2, o veneno é dividido em dois componentes que provocam menos danos, mas são letais quando misturados.

“O uso de um agente nervoso binário se presta a esse método e permite que o objetivo seja alcançado”, disse Vipin Narang, professor de ciências políticas no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

Para Narang, está claro que a Coreia do Norte queria que o Ocidente soubesse do que é capaz – mas sem causar vítimas em massa. “Realizar esse ataque publicamente, mas não matar nenhuma outra pessoa, é uma maneira de revelar essa capacidade”.

Em 2014, o Ministério da Defesa sul-coreano informou que a Coreia do Norte possuía um estoque de 2,5 mil a 5 mil toneladas de armas químicas e tinha capacidade de produzir uma variedade armas biológicas. Lee Byong-chul, especialista em não proliferação do Institute for Peace and Cooperation, em Seul, disse que o uso do VX realça a ameaça de proliferação representada pela Coreia do Norte.

O uso do VX pela Coreia do Norte deve diminuir a vontade do governo americano de retomar o diálogo sobre desarmamento nuclear, especialmente após os testes recentes feitos pelos norte-coreanos com um novo tipo de míssil balístico de alcance intermediário. A China é a maior defensora da reabertura das negociações, mas sua relação com Pyongyang se deteriorou muito. Pyongyang criticou Pequim, nesta semana, dizendo que o país “dança segundo a música dos EUA”.

Steve Vickers, consultor em assuntos de segurança, disse que o assassinato de Kim será considerado mais um insulto à China, que o protegeu durante anos, permitindo que vivesse em Macau. “O assassinato foi um constrangimento para a segurança da China e, em menor grau, para o governo da Malásia”, disse. / NYT

Mais conteúdo sobre:
Coreia do Norte Malásia

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.