Assassinato causa distúrbio na China

Dez mil pessoas queimam viaturas e prédios em Guizhou após libertação de suspeitos pela morte de garota

Cláudia Trevisan, O Estadao de S.Paulo

01 de julho de 2008 | 00h00

Cerca de 10 mil pessoas atacaram prédios públicos e incendiaram viaturas da polícia em uma cidade do sudoeste da China durante o fim de semana, em mais um caso de insatisfação popular contra o governo no período que antecede a Olimpíada de Pequim.Os protestos foram provocados pela libertação de suspeitos de ter estuprado e assassinado uma garota de 16 anos no Condado de Wen?ga, na Província de Guizhou. Segundo a polícia, a adolescente cometeu suicídio jogando-se em um rio da cidade. Mas a população sustenta que as autoridades locais querem abafar o caso por causa da ligação dos acusados com chefes locais do Partido Comunista.O descontentamento foi acentuado pelo espancamento do tio da adolescente por um grupo de capangas, depois que ele foi à polícia protestar contra a libertação dos suspeitos. Ferido gravemente, ele foi internado em um hospital local e, segundo algumas agências de notícias, acabou morrendo na tarde de ontem, vítima dos ferimentos. O jornal oficial China Daily divulgou informações ontem sobre as manifestações e afirmou que elas foram provocadas pela "suposta tentativa de oficiais da polícia de encobrir um caso de homicídio".Imagens gravadas por moradores que testemunharam os distúrbios foram reproduzidas na internet e nas redes de TV a cabo. Durante o dia de ontem, as cenas que mostravam a multidão atacando o prédio da polícia e vários carros incendiados começaram a ser removidas ou bloqueadas pela censura chinesa, assim como os comentários críticos deixados em fóruns na internet. A maioria dos que opinaram online manifestou ceticismo em relação à versão das autoridades locais de que os 10 mil manifestantes que saíram às ruas eram agitadores e também questionou a censura oficial em torno do assunto. A organização Centro para Direitos Humanos e Democracia, com sede em Hong Kong, afirmou que 300 pessoas foram presas por participar dos protestos. Segundo a entidade, 2 mil policiais foram enviados à região para conter as manifestações. Cenas gravadas ontem por cinegrafistas amadores mostravam integrantes da tropa de choque com escudos e capacetes fazendo a segurança das ruas da cidade.Sem vias institucionais para canalizar suas queixas e denúncias, os habitantes do interior da China acabam recorrendo com freqüência a manifestações desse tipo para combater a arbitrariedade e os abusos das autoridades locais. Nos últimos anos, os protestos cresceram de modo alarmante: em 2003, foram registrados 58 mil casos. No ano seguinte, o número saltou para 74 mil, um aumento de dez vezes em relação a 1994. Em 2005, a cifra subiu de novo, para 87 mil. A partir de 2006, o governo deixou de divulgar as estatísticas.Esses protestos normalmente são motivados por problemas locais e raramente questionam a autoridade do Partido Comunista em âmbito nacional. Grande parte dos casos é relacionada a abusos cometidos pelos chefes locais do partido, problemas de poluição de rios, apropriação indevida das terras e corrupção. Mas é evidente que sua multiplicação pode levar a um clima de instabilidade preocupante para o governo.Os protestos em Guizhou ocorreram pouco mais de um mês antes do início da Olimpíada e em um ano particularmente difícil para o Partido Comunista. Em março, foram realizadas no Tibete as mais violentas manifestações contra Pequim em quase 20 anos. Depois disso, o revezamento mundial da tocha olímpica foi marcado por protestos contra o controle chinês do Tibete e a situação dos direitos humanos na China. Por fim, o terremoto na Província de Sichuan deixou 80 mil mortos e causou a revolta de milhares de pais que perderam filhos no desabamento de escolas construídas supostamente com materiais de baixa qualidade. A multiplicação de protestos é a última coisa que as autoridades de Pequim querem ver às vésperas da Olimpíada. FÚRIA POPULARMaio - Pais que perderam os filhos no desabamento de escolas durante terremoto na Província de Sichuan protestam contra o governo, dizendo que material de baixa qualidade foi usado na construção dos edifíciosAbril - Chineses manifestam-se contra a França e boicotam mercados do Carrefour em represália pelos protestos contra a China durante a passagem da tocha olímpica por ParisMarço - Distúrbios no Tibete durante o 49.º aniversário do levante tibetano contra o controle chinês deixam dezenas de mortos2003 - Protestos por problemas como corrupção, confisco de terras, demissões, salários e o abismo entre ricos e pobres têm aumento vertiginoso

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