REUTERS/Craig Brough
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Assassinato de deputada tem potencial para afetar campanha por saída da UE

Para analistas britânicos, defensores do 'Brexit' terão que usar 'linguagem mais cuidadosa' na última semana de campanha; mercado reage com valorização da libra e das bolsas

O Estado de S. Paulo

17 Junho 2016 | 16h01

LONDRES - Os primeiros indícios de que o assassinato da deputada britânica Jo Cox poderia prejudicar a campanha pela saída do Reino Unido da União Europeia (UE) foram registrados nesta sexta-feira, 17, com a valorização da libra e as primeiras acusações de que os defensores do "Brexit" - como é chamada a possibilidade de saída britânica da UE - tenham contaminado o ambiente com sua campanha.

As homenagens a Jo são intensas nesta sexta-feira. Em Birstall, no condado de Yorkshire (norte da Inglaterra), local do crime, a estátua do teólogo Joseph Priestley, figura marcante da região, amanheceu repleta de flores para homenagear a deputada. Muitas pessoas não conseguiram conter as lágrimas ao pensar na morte de Jo, uma política de apenas 41 anos, mãe de dois filhos pequenos. A polícia britânica informou que ela havia recebido ameaças de um homem que não era Thomas Mair, que foi detido por sua morte.

"Os agentes receberam informações da deputada Jo Cox sobre comunicações mal-intencionadas. Em março de 2016 um homem foi detido", disse uma fonte policial. "Não é o homem detido no condado de West Yorkshire", completou, a respeito da região do norte da Inglaterra, local do crime.

Mercado em alta. A campanha do referendo de 23 de junho foi suspensa em sinal de luto e só deve ser retomada na segunda-feira, mas o assassinato de uma defensora da UE, dos refugiados e dos imigrantes, por um homem que gritou "Grã Bretanha primeiro", tem um grande peso no debate.

Apesar da polícia não ter revelado nada sobre a motivação do agressor, as bolsas e a libra esterlina abriram em alta nesta sexta, após vários dias de queda, pela percepção de que o assassinato pode frear em definitivo o avanço dos partidários do Brexit.

"É evidente que a recuperação se atribui completamente à ideia de que a tragédia de ontem aumenta as possibilidades de que a opção de permanecer na UE vença o referendo da próxima semana", disse Ray Atrill, codiretor de estratégia no mercado de divisas do National Australia Bank.

Ao mesmo tempo, os bancos centrais da Europa, Estados Unidos e Japão examinam a possibilidade de uma ação coordenada de injeção de liquidez em dólares em caso de Brexit, afirma o jornal econômico japonês Nikkei.

Na quinta-feira, pouco antes do assassinato, Nigel Farage, o político britânico mais antieuropeu, apresentou um polêmico cartaz que mostrava uma longa procissão de refugiados como uma ameaça ao Reino Unido, com a frase "Breaking point" ("Ponto de ruptura", em tradução livre). A charge da edição desta sexta-feira do jornal The Guardian mostra Farage diante do cartaz, mas com outra frase: "Ponto de ódio".

Linguagem cuidadosa. Os analistas, no entanto, não têm certeza de que o assassinato resultará em votos para o lado "Remain" (que defende a permanência), e sim que obrigará a campanha do "Leave" (a favor da saída) a "usar uma linguagem mais cuidadosa", como afirmou John Curtice, professor de Ciências Políticas da Universidade de Strathclyde.

"Temos que refletir sobre como vamos fazer a última semana de campanha", disse à BBC Stephen Kinnock, deputado trabalhista, que dividia o gabinete com Jo Cox na Câmara dos Comuns. Kinnock pediu às pessoas que reconsiderem "a ideia de que os políticos são alvos".

Gabrielle Giffords, congressista democrata americana que ficou à beira da morte após um ataque similar, escreveu no Twitter que o assassinato de Jo "é uma manifestação de uma sujeira em nossas políticas que deve acabar".

A imprensa britânica também entrou no debate. "Quando você grita uma e outra vez "Ponto de Ruptura", não fica surpreso quando algo se rompe", escreveu o colunista Alex Massie, na revista The Spectator. A publicação, de tendência conservadora, pediu a suspensão do referendo.

A campanha do Brexit percebeu o perigo. Um de seus ativistas, Alex Deane, escreveu uma mensagem, divulgada pelo jornal The Times, na qual alerta os correligionários que "os analistas têm muita vontade de avançar sobre as provas de suposta insensibilidade. Temos que ser conscientes". / AFP

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