Anjum Naveed/AP
Anjum Naveed/AP

Assassinato de filha de diplomata provoca indignação contra feminicídio no Paquistão

Noor Mukadam, de 27 anos, foi encontrada decapitada em bairro nobre da capital; polícia acusa Zahir Jaffer, herdeiro de uma das famílias mais ricas do país

Redação, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2021 | 14h38

ISLAMABAD - Um assassinato no coração da capital do Paquistão, Islamabad, envolvendo famílias da elite da sociedade paquistanesa dominou as manchetes do país na semana passada, provocando indignação nacional contra o feminicídio no país do sul da Ásia. Filha de um ex-diplomata, Noor Mukadam, de 27 anos, foi encontrada decapitada em um bairro nobre da capital no dia 20 de julho. A polícia acusa Zahir Jaffer, cidadão americano e descendente de uma das famílias mais ricas do Paquistão, pela autoria do crime.

Os investigadores dizem que os dois eram amigos, e Jaffer atraiu Mukadam, filha de um ex-enviado do Paquistão à Coreia do Sul, para sua casa, manteve-a lá por dois dias e depois a assassinou brutalmente. 

Anualmente, centenas de mulheres são mortas no Paquistão, e outros milhares são vítimas de violência brutal. Ainda assim, poucos casos recebem atenção constante da mídia e apenas uma pequena fração dos perpetradores são punidos.

O assassinato ocorrido no último dia 20, no entanto, atingiu um segmento da sociedade que muitas vezes é considerado imune a essa injustiça sistêmica, o que gerou um clamor popular diferente de qualquer outro caso recente. 

"Os status das famílias envolvidas, especialmente a família de Zahir Jaffer, e, claro, o pai de Mukadam sendo um ex-embaixador, e isso acontecendo dentro dos círculos de elite de Islamabad...tudo isso combinado definitivamente trouxe mais atenção para o caso”, comentou Nida Kirmani, professora associada de Sociologia da Lahore University of Management Sciences (LUMS). 

O assassinato de Mukadam se tornou o feminicídio mais noticiado da história recente. As redes sociais explodiram, e houve protestos e vigílias nas principais cidades não só do Paquistão, como em lugares distantes, como Canadá e Estados Unidos. Enfrentando a ira do público, a família Jaffer publicou anúncios de página inteira em jornais, distanciando-se do assassinato e pedindo justiça. 

Impactos em Islamabad

A vida das mulheres em áreas rurais do país asiático é notoriamente diferente da vida nos centros urbanos, particularmente Islamabad, onde cafés chiques e áreas comerciais atendem à mistura de intelectuais ricos, funcionários do governo, diplomatas, expatriados e jornalistas estrangeiros da cidade. 

Para muitas mulheres que vivem na capital do país, no entanto, até mesmo essa aparência de liberdade e segurança foi destruída. "Eu também tenho filhas e me preocupo dia e noite. Se isso acontecer com minha própria filha, quem ficará ao meu lado?", disse Amna Salman Butt à agência Reuters, em uma vigília por Mukadam em Islamabad que atraiu centenas de pessoas.

"Quando alguém nos maltratar, teremos que criar hashtags também?", complementou, referindo-se à hashtag #JusticeForNoor, que dominou o Twitter no Paquistão.

"Todas as mulheres com quem conversei depois do caso falam sobre sentir um sentimento de medo intensificado por parte dos homens ao seu redor", disse Benazir Shah, jornalista de Lahore. Ela disse que algumas reclamam até mesmo de não conseguir dormir à noite.

Enquanto as voltas e reviravoltas diárias do julgamento se desdobram ao olhar da mídia nacional, grupos de direitos humanos do Paquistão alegam que o governo deveria aprovar um projeto de lei histórico destinado a combater a violência doméstica, a fim de amenizar a indignação pelo caso. O projeto de lei, que define a violência de forma ampla, incluindo "abuso emocional, psicológico e verbal", poderia agilizar o processo de obtenção de ordens de restrição. 

No início deste mês, legisladores solicitaram a opinião de um conselho de estudiosos islâmicos para verificar se a legislação adere aos princípios islâmicos. Qibla Ayaz, que chefia o conselho, disse à Reuters que eles haviam discutido apenas informalmente o projeto, mas sentiu que sua linguagem ambígua era inaceitável em uma sociedade conservadora como o Paquistão. 

"Isso significa que uma filha ou esposa pode reclamar quando um pai ou marido os impede de sair de casa? Isso pode não ser aceitável para todos os paquistaneses", disse ele. “Todos concordamos com o objetivo de acabar com a violência contra as mulheres, mas nosso sentimento é que esse projeto pode realmente causar uma nova tensão social e levar a mais violência doméstica”, acrescentou Ayaz. /REUTERS

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