Assassinato de opositor revolta tunisianos

Deputado Mohamed Brahmi é o segundo líder secular executado em seis meses

TÚNIS, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2013 | 02h14

O deputado constituinte e líder do partido tunisiano de esquerda Movimento do Povo, Mohamed Brahmi, foi assassinado ontem a tiros diante da mulher e dos filhos. O crime despertou protestos pela renúncia do presidente eleito, Moncef Marzouki, islamista moderado, sob quem recaem críticas pela violência política no país. É o segundo líder secular assassinado em seis meses.

O crime ocorreu na cidade de Ariana, periferia de Túnis. Segundo testemunhas, dois homens em uma moto passaram atirando quando Brahmi descia do carro, em frente a sua casa.

O deputado era fundador do Movimento do Povo, de ideologia socialista e pan-arabista. Embora tivesse pouca representação no Parlamento - dois deputados eleitos, entre 217 membros da Câmara -, o partido se tornou uma das vozes da oposição ao presidente Marzouki, em especial depois de fevereiro, quando outro militante de esquerda, Chokri Belaid, conhecido em todo o país, foi assassinato em circunstâncias semelhantes.

Brahmi ocupou o vácuo deixado por Belaid com severas críticas ao partido islâmico moderado Ennahda, líder da coalizão governista, e também aos movimentos salafistas radicais que pregam a transformação da Tunísia em um Estado islâmico.

Centenas de manifestantes protestaram com gritos de "Fora, Markouki!" e de "Ghannouchi assassino!", uma referência ao presidente do Ennahda, o islamista Rached Ghannouchi, que retornou do exílio em 2011, após a queda da ditadura de Zine al-Abidine Ben Ali. Os manifestantes também se concentraram em frente ao Ministério do Interior, órgão responsável pela segurança pública.

Houve também protestos no interior, incluindo a cidade de Sidi Bouzid, epicentro das manifestações que resultaram na eclosão da Primavera Árabe, em dezembro de 2010. A União Geral de Trabalhadores da Tunísia convocou uma greve geral para hoje.

Em meio às manifestações, Chiba Brahmi, irmã do deputado morto, acusou o Ennahda de ser responsável pelo crime. "Nossa família tinha o sentimento de que Mohamed teria o mesmo destino de Belaid", afirmou.

À noite, o presidente tunisiano afirmou ao jornal Le Monde que seu governo estava prestes a elucidar a morte de Belaid, o que teria provocado "pânico" nos mesmos responsáveis. "A data das eleições legislativas e presidenciais logo será anunciada. Vivemos os últimos 15 minutos do período de transição", garantiu. "Não é por acaso que esse assassinato ocorreu agora." / ANDREI NETTO, COM REUTERS

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.