CLAUDIO CRUZ / AFP
CLAUDIO CRUZ / AFP

Assassinato de Trotsky, oito décadas de um dos maiores crimes políticos da história

Cidade do México ainda tem as marcas da tentativa de atentado que precedeu a morte do líder da revolução russa

Redação, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2020 | 03h00

CIDADE DO MÉXICO - Uma parede cheia de marcas de tiros permanece como vestígio do ataque a que Leon Trotsky sobreviveu na Cidade do México em 1940, um prelúdio de seu assassinato três meses depois, executado por um implacável agente de Stalin.

"Já me familiarizei com a morte", disse Trotsky após o atentado de 24 de maio contra sua casa no bairro de Coyoacán, atualmente um museu onde seus restos mortais repousam ao lado de um monumento que tem o martelo e a foice esculpidos. "Em meio mundo o ódio de (Joseph) Stalin me seguiu", comentou o líder da revolução russa, cujo nome verdadeiro era Lev Davidovich Bronstein, ao jornal El Universal.

A perseguição, que cobriu sua família de tragédias e o empurrou para uma vida itinerante, chegou ao fim em 21 de agosto de 1940, depois que Ramón Mercader, um comunista espanhol que ganhou sua confiança, atingiu sua cabeça com uma picareta de alpinismo no dia anterior.

"Foi um crime ideológico e simbólico", comentou à AFP o cubano Leonardo Padura, que durante cinco anos investigou o assassinato para seu romance "O Homem que Amava os Cachorros", no qual entrelaça a vida de Trotsky e Mercader com a história fictícia de um escritor que conhece o assassino em Havana. Mercader viveu em Cuba na década de 1970. 

Eram tempos de polarização revolucionária, em que Stalin, com seu punho de ferro, controlava o poder da esquerda, e Trotsky, ele mesmo um "fundamentalista", brilhava como "a única luz" com suas críticas ao regime soviético, descreve Padura em Havana.

Stalin defendia o "socialismo em um só país"; Trotsky, que adotou o nome de um de seus carcereiros na Sibéria, defendia a "revolução permanente" em todo o mundo.

Abrigo no México

Expulso da Rússia e do Partido Comunista Soviético, Trotsky refugiou-se no México em 9 de janeiro de 1937, auxiliado pelo famoso muralista Diego Rivera, que intercedeu junto ao presidente Lázaro Cárdenas (1934-1940).

Paradoxalmente, o líder do movimento que precipitou a Revolução de Outubro e o general Cárdenas nunca se encontraram, embora trocassem cartas. "Certamente foi devido às circunstâncias do momento, porque não havia necessidade de se reunir", disse à AFP Cuauhtémoc Cárdenas, político e filho do presidente.

Acompanhado de sua mulher Natalia Sedova, o fundador do Exército Vermelho foi recebido no porto de Tampico pela pintora Frida Kahlo, com quem há rumores de que teve um caso. "Ao chegar, ele se mistura a um grupo de personagens que coincidem naqueles momentos em um México explosivo, a começar por Rivera e Kahlo", segundo Padura.

As balas também viriam do mundo da arte, já que David Alfaro Siqueiros, outro dos grandes muralistas mexicanos, participou da tentativa de 24 de maio.

Essas circunstâncias, somadas à forma como ele foi assassinado, deram uma aura especial ao exílio de Trotsky, que teve a peculiaridade de que a perseguição nunca parou, observa Padura.

Veredicto popular 

Arriscando especulações históricas, o romancista cubano acredita que, impondo-se contra Stalin, Trotsky abordou com mais pragmatismo as contradições do modelo soviético. Mas possivelmente ele teria aplicado métodos semelhantes aos de seu carrasco, diz o escritor, evocando uma reflexão que irrita os trotskistas. 

"Trotsky teria percebido que ao invés de matar 20 milhões de pessoas, apenas um milhão precisava morrer, mas que este milhão era necessário. Essa poderia ter sido uma das diferenças", diz.

Oito décadas após sua morte, a figura do político russo continua a se polarizar. 

"Trotsky", série distribuída pela Netflix em 2019 mas produzida pelo principal canal estatal russo, mostra o protagonista como um vilão. A família, que interpretou a caracterização como a de um velho decrépito e senil, recusou-se a permitir gravações na casa-museu.

Em suas viagens apresentando o romance, Padura acredita ter encontrado um veredicto popular sobre a luta histórica. "Por ter ficado fora do poder, a figura de Trotsky atingiu a dimensão que ainda tem e para a qual você encontra ainda hoje pessoas que te dizem - eu sou trotskista ou tenho inclinações para o trotskismo; enquanto é muito difícil encontrar alguém que diga que sou um stalinista ou tenho uma inclinação para o stalinismo". / AFP

 

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