Pierre Michel Jean / AFP
Pierre Michel Jean / AFP

'Assassinato do presidente não espanta', diz pesquisadora sobre Haiti

Vanessa Matijascic, do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da USP e professora de relações internacionais da Faap explica a instabilidade política que o país vive desde o início do século 20

Levy Teles, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2021 | 12h00

O assassinato do presidente do Haiti, Jovenel Moïse, nesta quarta-feira, 7, não espanta especialistas como Vanessa Matijascic, professora de relações internacionais da Faap e pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da USP. Isso porque ela lembra que o país tem um histórico de governos que beneficiam a elite - uma relação que data desde o período após a Revolução Haitiana. 

Em entrevista ao Estadão, Matijascic afirma que a violência é um efeito histórico de longa data. “Há um contexto ainda muito violento no Haiti”, afirma. Ela também comenta sobre o pioneirismo da Revolução Haitiana, a primeira a abolir a escravidão nas Américas, o significado e o efeito das intervenções externas na ‘Pérola do Caribe,’ como país era conhecido ao longo do século 17, que levaram o país a ser o mais pobre do continente.

Confira a entrevista na íntegra:

De 1957 até 1986, os Duvalier controlam o país com apoio dos militares, em 1991, uma intervenção militar derruba o novo presidente, o que levou à missão de paz da ONU. Te surpreende o que acontece no Haiti hoje?

Há um contexto ainda muito violento no Haiti. Veja, o próprio Dessalines, dos tempos da Revolução Haitiana, foi assasinado; Henri Cristophe, dizem que cometeu suicídio; outros morreram em exercício do mandato e não sabemos se foi morte natural. Alguns líderes haitianos foram envenenados, outros fugiram porque não tiveram condições para governar.  Toda vez que tem uma presidência com interesses mais voltados para a elite, isso gera revolta popular no país. Pensando na situação de Moïse, que ainda tentou ficar além dos cinco anos de governo, não fico espantada que ele tenha sido assassinado.

Qual a relevância da Revolução Haitiana para o país?

Falando de forma sucinta, o Haiti é um país em que existia alguns escravizados que obtiveram a liberdade e tinham pequenas posses de terra. Na literatura americana, os miscigenados na sociedade colonial haitiana e seus descendentes, foram chamados 'mulatos'. Os valores de liberdade, igualdade e fraternidade da Revolução Francesa foram vistos por escravizados libertos de primeira geração que tinham maiores condições de ficarem antenados com o que acontecia na metrópole. A desigualdade da sociedade haitiana tornou-a propícia ao desencadeamento de rebeliões, que culminaram na independência do Haiti em 1804, mesmo num período em que a França tinha preocupações com as guerras napoleônicas. Ocorre que essa ‘liberdade’ demandou 20 anos de negociações, até que em 1824 a França reconheceu a independência política do país. Estavam sim libertos, independentes, mas tinham que pagar uma indenização, de valor muito alto.

E qual o significado da Revolução Haitiana para o continente?

A independência do Haiti foi vista com grande receio tanto na Europa e dentro do continente americano. Qual era a simbologia? Vamos pensar nos países que mantinham a mão de obra escravizada: em 1804, um país pequeno que conseguiu independência, venceu a tropa de mercenários da França e se separou de uma grande metrópole, de uma maioria de escravizados, era visto com muito temor porque podia inspirar outros países que mantinham a mão de obra escravizada - inclusive os EUA. Eles ficaram distantes porque só em 1865 há um país que vai libertar e deixar todos os americanos em patamar de igualdade. O símbolo da independência política haitiana é visto como um grande receio que pudesse inspirar grandes rebeliões e elas tivessem êxito, como foi visto no Haiti.  Essa independência política revela as assimetrias e relações de dependência que são costuradas.

E como o Haiti, que declarou independência antes que a maioria dos países da América Latina, acabou por não se desenvolver?

Não havia aproveitamento do crescimento porque tinham que pagar a França. Além disso, a elite haitiana não inovou em termos de produção de riqueza e se manteve no período colonial, na monocultura de açúcar. O que isso significou? A grande massa haitiana se sentiu traída mediante a um processo que fizeram parte, mas após um período de liberdade, suas condições de trabalho eram muito próximas ao que era o Haiti colonial. 

Isso, ao longo do século 19 fez com que essa pequena elite governasse, depois de um tempo, representantes dessa camada mais popular de escravizados libertos pudessem assumir o governo e, portanto, a gente tem esses dois grandes grupos: um pequeno grupo que deteve grande parte das posses e uma grande maioria que acaba trabalhando nessas terras.

E como isso evoluiu no século 20?

No século 20, por uma questão específica dos EUA, eles resolveram promover uma intervenção pelos Marines, e, entre 1915 e 1934, o Haiti fica sob ocupação americana. Eles olham para a sociedade haitiana e notam um forte conflito entre a elite e a maioria.

Esse período de ocupação fez com que crescesse o Negritude, um movimento de resgate aos valores afrodescendentes do Haiti, do fato que essa mão de obra veio de outro continente para estar ali, porque em 15 anos do primeiro ciclo da colonização, a mão de obra exterminada foi indígena, contra a intervenção estrangeira. Com isso, eles resgataram essa coisa de independência da França e não gostavam da ocupação americana. É apenas nesse período que os EUA pagam a indenização para a França e agora os haitianos seriam dependentes, do ponto de vista econômico, dos americanos.

Qual a consequência política da intervenção americana?

No período dos Marines, militares haitianos foram treinados e formaram a Gendarmerie, grupo com força de segurança pública que teve papel relevante no cenário político haitiano, uma vez que os americanos deixaram o país, e, segundo Franklin Delano Roosevelt, redigiram uma constituição sucinta, perfeita para o país. Eu acho que isso deixa um pouco claro o papel dos EUA numa construção de interdependência com a elite do país e como esses militares serviam aos interesses dessas elites para que elas pudessem governar e qualquer rebelião popular fosse suprimida. Durante 1934 até 1957, tem uma sucessão de regimes oriundos dos presidentes que assumem, numa república parlamentarista. Essas figuras são da elite, com um pequeno período de alguém de origem mais popular.

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