Assassinato e redes sociais

Divulgação de vídeo de mortes de jornalistas nos Estados Unidos foi friamente calculada pelo autor

Farhad Manjoo. The New York Times, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2015 | 02h04

Em um sentido muito triste, não havia nada de novo ou muito inusitado no assassinato de dois jornalistas ao vivo, na manhã de quarta-feira em Virgínia, nos Estados Unidos. A morte na TV vem ocorrendo com assustadora regularidade desde o advento desse veículo. A morte, em 1963, de Lee Harvey Oswald, apontado como o assassino do presidente John F. Kennedy, por Jack Ruby, o 11 de Setembro e a queda do World Trade Center. A perspectiva da morte que aparece repentinamente nas telas é comum e, ao mesmo tempo, abominável.

Em outro sentido, no entanto, o vídeo das mortes de Virgínia, postado por Bryce Williams, cujo nome real era Vester Lee Flanagan e seria o autor dos disparos que mataram dois de seus ex-colegas de trabalho na emissora WDBJ, é uma assustadora distorção na era do compartilhamento online e da documentação onipresente em vídeo.

As mortes aparentemente foram habilmente planejadas para que tivessem a máxima repercussão e para semearem o máximo pavor, no Twitter, no Facebook e em celulares.

O vídeo que Flanagan mostra é um close de uma execução em primeira pessoa e foi postado somente depois que suas contas nas redes sociais se tornaram amplamente conhecidas, enquanto a polícia procurava o assassino.

Ao contrário das mortes televisionadas anteriormente, essas não somente foram divulgadas, como tiveram uma ampla distribuição, tornando-se virais, graças à cumplicidade de milhões de usuários que não resistiram à oportunidade de olhar e de compartilhar.

O horror é a percepção de que, enquanto o vídeo se espalhava pelas redes, o assassino antecipou os movimentos - de que contava com a mecânica desses serviços e com nossa incapacidade de resistir a transmitir o que ele postou. Para muitas pessoas, essa percepção chegou tarde demais.

O Twitter e o Facebook imediatamente suspenderam as contas de Flanagan. Mas não foi o bastante. Quando sua presença social foi eliminada, seus vídeos já haviam sido amplamente compartilhados por jornalistas e usuários comuns e já iam além da internet, nos programas matutinos da TV, e eram baixados e novamente postados em toda a rede - onde, com alguma busca, muito provavelmente, continuarão acessíveis indefinidamente.

Flanagan sabia que numa nação em que dezenas de milhares de pessoas morrem anualmente por armas de fogo, as mortes de duas pessoas não se tornaria uma notícia internacional se não fossem filmadas.

Como jornalista, ele também sabia que o vídeo produzido pelo amador é algo irresistível e, ao mesmo tempo, mórbido - o ponto de vista no nível do chão tremido, a gravação contínua de todo incidente tornou-se um espetáculo comum no noticiário de TV. Então, ele quis produzir seu próprio vídeo.

Talvez tenha previsto também que num assassinato que tem ampla cobertura, os repórteres agora se apressam em fazer uma busca na internet sobre o acusado da autoria. Flanagan foi rápido. Suas contas em redes sociais estavam preparadas com uma foto profissional dele. Então, assim que seu nome começou a ser mencionado online, ele entrou no Twitter e no Facebook para começar a postar o próprio vídeo do assassinato.

No prazo de 20 minutos, no Twitter, ele atualizou seu status meia dúzia de vezes, culminando num post que mostrava o vídeo das mortes. Rapidamente, conseguiu milhares de seguidores.

Houve alguma incerteza no compartilhamento. Alguns usuários manifestaram certa reserva ao transmitir o perfil do atirador e seus tuítes. Postar ao vivo um assassinato e a documentação das mortes pelo próprio matador era exatamente o que ele pretendia.

Essas indagações, porém, não contribuíram para reduzir o número de visitas, o que mostra o poder que as redes têm de apelar para nossos desejos subconscientes automáticos. Os vídeos saíram imediatamente, traçando um novo caminho para os niilistas ganharem um momento na mídia: um exemplo que, dado o seu sucesso em obter ampla publicidade, muito provavelmente será seguido por outros. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

FARHAD MANJOO É JORNALISTA E ESCRITOR

 

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