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Jean Marc Herve Abelard/EFE
Jean Marc Herve Abelard/EFE

Assassinato de presidente é resultado de anos de conflitos e impasses no Haiti

País há muito tem sido tomado pela rebeldia e pela violência

Natalie Kitroeff  e Anatoly Kurmanaev, The New York Times, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2021 | 05h00

O assassinato do presidente do Haiti, Jovenel Moise, em um ataque brutal em sua residência na quarta-feira, 7, agravou a crise no país caribenho e intensificou os temores de violência política mais generalizada.

O primeiro-ministro interino, Claude Joseph, disse que o presidente tinha sido “covardemente assassinado”, pediu ao país para “ficar calmo” e procurou assegurar aos haitianos e ao mundo que a polícia e o Exército tinham a situação sob controle.

Mas as palavras de Joseph pouco ajudaram a amenizar as preocupações com um possível caos.

“Não há mais Parlamento, o Senado não está funcionando há um bom tempo, não existe presidente do Tribunal de Cassação”, disse Didier Le Bret, um ex-embaixador da França no Haiti, acrescentando a respeito de Joseph: “Tudo dependerá dele”.

Histórico de violência política

O assassinato de Moise é o culminar de anos de instabilidade no país, que há muito tem sido tomado pela rebeldia e pela violência. O Haiti, que já foi uma colônia de escravos famosa pela brutalidade de seus senhores, conquistou a independência da França depois que os escravos se revoltaram e derrotaram as forças de Napoleão Bonaparte em 1803. Mas, nos dois séculos desde então, o Haiti tem tido dificuldades em sair de ciclos de ditaduras e golpes que têm mantido o país empobrecido e lutando para oferecer serviços básicos a muitos de seus habitantes.

Durante duas décadas, o país sofreu sob a ditadura de François Duvalier, conhecido como Papa Doc, e, depois, de seu filho, Jean-Claude, chamado de Baby Doc. Um padre de uma região pobre, Jean-Bertrand Aristide, tornou-se o primeiro presidente eleito democraticamente em 1990. Mas, em menos de um ano, ele foi deposto em um golpe; porém voltou ao poder em 1994 com a ajuda de milhares de soldados americanos. 

Aristide foi reeleito em 2000, mas foi forçado a deixar o cargo mais uma vez após outro levante armado e partiu para o exílio. Ele chamou isso de “sequestro” orquestrado por atores internacionais, entre eles os governos americano e francês.

Terremoto, cólera e corrupção

Quando um terremoto devastador arrasou grande parte do país em 2010, o desastre foi visto como uma oportunidade para ressuscitar a infraestrutura danificada e começar do zero, apoiando a capacidade do próprio governo de reconstrução. Mais de US$ 9 bilhões em assistência humanitária e doações foram distribuídos, apoiados por mais US$ 2 bilhões em suprimentos de petróleo barato e empréstimos da então poderosa aliada Venezuela. Organizações de ajuda internacional correram para ajudar a gerenciar a recuperação.

Mas o dinheiro não colocou o Haiti em um novo caminho – e muitos especialistas acreditam que o país esteja pior desde que a reconstrução começou. Um surto de cólera logo após o terremoto que matou pelo menos 10 mil haitianos foi relacionado à chegada dos soldados da paz das Nações Unidas (ONU), que admitiram o envolvimento apenas anos depois, mas negaram responsabilidade legal, protegidos por tratados internacionais que garantem imunidade diplomática à organização.

Michel Martelly, um ex-cantor famoso que se tornou presidente em 2011, foi acusado de corrupção generalizada e má gestão de fundos destinados à reconstrução.

Relatórios de auditores nomeados por tribunais haitianos revelaram com detalhes que grande parte dos US$ 2 bilhões emprestados ao país pela Venezuela foram desviados ou desperdiçados em oito anos. Antes de entrar na política, o presidente Moise, então um exportador de frutas pouco conhecido, foi acusado em um dos relatórios de estar envolvido em um esquema para desviar fundos destinados a reparos de estradas.

Haitianos vão para as ruas

Nos anos que se seguiram, o persistente mal-estar econômico, o aumento da criminalidade e da corrupção levaram a protestos de haitianos cansados de seu governo e exigindo a renúncia de Martelly. Mas ele se manteve no poder e, após um mandato, escolheu Moise para sucedê-lo nas eleições de 2015.

A candidatura de Moise esteve marcada desde o início. Sua campanha foi acusada de fraude e corrupção. Ele assumiu a presidência 14 meses depois de os eleitores irem às urnas, após um tribunal eleitoral não encontrar provas de irregularidades eleitorais generalizadas. Moise tomou posse em 2017, enfrentando uma acusação por suborno relacionada à ajuda venezuelana.

Ao longo dos anos seguintes, Moise usou seu controle do sistema judicial para rejeitar as acusações e minar a oposição, que nunca aceitou sua vitória nas eleições. O resultado foi um governo cada vez mais paralisado que ficou completamente estagnado no início de 2020, enquanto o país enfrentava a pandemia de covid-19.

Crise de liderança, vazio de poder e covid-19

Um desacordo entre Moise e a oposição em relação ao início de seu mandato presidencial levou a uma crise política total, deixando o país sem um parlamento ou uma nova data para as eleições. Conforme a crise se arrastava, Moise começou a governar por decretos impopulares, minando ainda mais a legitimidade de seu governo. E os protestos contra ele se intensificaram.

O impasse político abalou severamente o já fraco sistema de saúde do país enquanto os casos de covid-19 se espalharam. O Haiti continua sendo o único país do hemisfério ocidental que não recebeu nenhuma vacina contra a covid-19 e atualmente tem dificuldades para lidar com o mais recente pico de infecções. Embora os números oficiais de mortes causadas pelo novo coronavírus permaneçam relativamente baixos devido à testagem limitada, trabalhadores humanitários disseram que os hospitais estão lotados.

Gangues de criminosos e reino do terror

O vazio de poder do Haiti tem sido cada vez mais preenchido por líderes do crime organizado, que conquistaram partes da capital no ano passado, instaurando um reino do terror. Sequestros, saques e violência associada a gangues tornaram partes do país ingovernáveis, deixando muitos haitianos com medo até mesmo de sair de casa e forçando algumas organizações humanitárias, das quais muitos no país dependem para sobreviver, a reduzir suas atividades.

Organizações defensoras de direitos associaram o aumento da violência de gangues ao impasse político do país, acusando políticos conhecidos de trabalhar com o crime organizado para intimidar adversários e acertar contas na ausência de um governo funcionando.

No mês passado, um dos líderes de gangues mais conhecidos do Haiti declarou publicamente uma guerra contra as elites tradicionais do país, convidando os cidadãos a atacar empresas estabelecidas.

“É o seu dinheiro que está nos bancos, nas lojas, nos supermercados e nas concessionárias”, disse Jimmy Cherizier, líder de gangue mais conhecido pelo pseudônimo Barbecue, em uma mensagem de vídeo nas redes sociais. “Vão e peguem o que é de vocês por direito.” /TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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