Arash Khamooshi/The New York Times
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Assassinatos caros

Há assassinatos que não apenas afetam a família e os amigos, mas mudam o mundo

Moisés Naím*, O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2020 | 04h00

A cada ano, cerca de meio milhão de pessoas em todo o mundo são assassinadas. Naturalmente, essas mortes têm efeitos devastadores sobre famílias e pessoas próximas às vítimas. Mas também há os assassinatos que não apenas afetam a família e os amigos, mas também mudam o mundo. O exemplo icônico disso é o ataque que, em 1914, custou a vida do arquiduque Francisco Fernando da Áustria em Sarajevo. Sua morte desencadeou um processo que levou à eclosão da 1.ª Guerra e à morte de 40 milhões de pessoas.

Recentemente, ocorreram outros assassinatos caros: o do jornalista saudita Jamal Khashoggi, em outubro de 2018, e o do general iraniano Qassim Suleimani, em 3 de janeiro. Ambas foram mortas por governos. 

O jornalista saudita foi morto pelo governo de seu país e o general iraniano pelo presidente dos EUA. Enquanto Donald Trump comemora sua decisão, o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, nega qualquer envolvimento no assassinato de Khashoggi, que ocorreu no consulado saudita em Istambul.

 

O príncipe culpa os funcionários de seus serviços secretos, alguns dos quais já foram julgados e condenados à morte. No entanto, pesquisadores do governo turco e do The New York Times concluíram que o sequestro, assassinato e esquartejamento do jornalista foram realizados por agentes próximos ao príncipe, que subestimou claramente as terríveis consequências que o assassinato teria sobre sua reputação mundial e a de seu país. Khashoggi já se tornou um símbolo que lembra o mundo dos riscos enfrentados por jornalistas que enfrentam regimes autoritários, dispostos a matar seus críticos.

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Embora ainda seja muito cedo para determinar todas as consequências da morte de Suleimani, não há dúvida de que serão significativas. A reação de Teerã foi moderada. Mas é arriscado supor que a resposta iraniana será limitada ao lançamento de mísseis em duas bases no Iraque. 

Teerã geralmente não responde imediatamente às agressões de seus adversários e, ao contrário, espera para atacá-los em lugares inesperados. Em 2012, por exemplo, foi assassinado um cientista iraniano cujo trabalho tinha importantes usos militares. O governo iraniano acusou Israel. Algum tempo depois, diplomatas israelenses foram atacados na Geórgia, na Índia e na Tailândia, países que nada tinham a ver com o assassinato do cientista. 

Em 1992, Israel abateu um dos líderes do Hezbollah. Dois meses depois, a organização terrorista patrocinada pelo Irã lançou um caminhão carregado com explosivos contra a embaixada de Israel em Buenos Aires, matando 29.

As sequelas da decisão de assassinar Suleimani serão múltiplas e variadas. Por enquanto, se vislumbram duas muito claras. A primeira é que, no futuro imediato, aumentará a presença militar dos EUA no Oriente Médio. “Trazer os soldados para casa” é uma promessa eleitoral e um slogan frequentemente usado pelo presidente Trump. Agora ela parece inatingível. O segundo efeito é que o acordo nuclear entre o Irã e várias potências já não tem efeito. O Irã já anunciou que continuará a enriquecer urânio sem restrições.

 

O assassinato do general iraniano confirma que os países que se opõem aos EUA devem contar com armas nucleares para se defender. Eles sabem que Trump nunca faria na Coreia do Norte o que fez no Irã, pois Kim Jong-un, o líder norte-coreano, pode responder causando uma catástrofe nuclear. Assim o assassinato de Suleimani estimula a proliferação nuclear, algo que ameaça a todos nós.

A história mostra que, frequentemente, as reações às agressões têm consequências mais graves do que as próprias agressões. Os ataques terroristas de 11 de setembro nos EUA custaram muito à Al-Qaeda e causaram cerca de 3 mil mortes. A reação de Washington desencadeou as guerras no Iraque e do Afeganistão, as mais longas da história dos EUA. Causou centenas de milhares de mortes entre civis e militares em diferentes países com custos econômicos incalculáveis.

Eliminar Suleimani, sem dúvida um terrorista perigoso, certamente trará benefícios aos EUA e seus aliados. Mas também terá custos significativos, muitos deles inesperados e, por enquanto, invisíveis. Este será um assassinato caro. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

* É ESCRITOR VENEZUELANO E MEMBRO DO CARNEGIE ENDOWMENT

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