Assassinatos colaterais

Por que os Estados Unidos dispararam mísseis contra uma avó e seus netos que cuidam de seu jardim em um vilarejo do Paquistão?

JOSHUA KEATING/SLATE, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2013 | 02h16

Dois novos relatórios publicados esta semana lançam uma luz perturbadora sobre a guerra dos aviões não tripulados (drones) americanos. Um deles, de autoria da Anistia Internacional, tem como foco ataques recentes no Paquistão. Outro, da Human Rights Watch, trata dos assassinatos cirúrgicos cometidos pelos EUA no Iêmen.

O caso mais desconcertante é o de Mamana Bibi, avó de 68 anos morta por mísseis Hellfire enquanto cuidava de seu jardim, no dia 24 de outubro de 2012, relatado no testo da Anistia: "Ela estava nos campos de nossa família colhendo quiabos para cozinhar naquela noite", recordou Zubair Rehman, um dos netos de Mamana Bibi, que estava a cerca de 40 metros dela, também cuidando das plantas.

As três netas de Mamana Bibi, Nabila, de 8 anos, Asma, de 7, e Naeema, de 5, também estavam no campo, a cerca de 35 e 30 metros de sua avó, ao norte e ao sul, respectivamente. Ao sul, a cerca de 30 metros, outro dos netos de Mamana Bibi, Rehman Saeed, de 15 anos, caminhava para casa acompanhado do amigo Shahidullah, da mesma idade.

Acostumada a ver as aeronaves não tripuladas nos céus, Mamana Bibi e os netos continuaram com sua rotina. "Os drones sobrevoavam nosso vilarejo dia e noite, às vezes em grupos de dois ou três. Já estávamos acostumados a vê-los sobre a vila o tempo todo", prosseguiu Zubair Rehman. "Eu estava dando água aos animais e meu irmão colhia milho", disse Nabila.

Então, diante dos olhos da família, Mamana Bibi foi feita em pedaços na explosão de pelo menos dois mísseis Hellfire disparados simultaneamente por um drone americano.

Um segundo ataque atingiu o campo próximo, poucos minutos mais tarde, ferindo gravemente um dos netos de Mamana Bibi, que tinha corrido para o local da primeira explosão.

O relatório destaca que "a Anistia Internacional não pode investigar plenamente os motivos por trás do assassinato de Mamana Bibi sem que as autoridades americanas forneçam mais informações", embora uma fonte do serviço paquistanês de espionagem tenha indicado que um combatente local, ligado ao Taleban, pode ter usado um telefone via satélite naquele entorno vários minutos antes do ataque.

Efeito psicológico. Entretanto, a estrada mais próxima fica a quase 300 metros de onde ela foi atingida. O ataque ocorreu um ano depois de o atual diretor da CIA, John Brennan, ter afirmado que "não houve mortes colaterais (nos ataques com drones) em razão do grau de precisão das capacidades que desenvolvemos", algo muito improvável.

Os autores escrevem que "as evidências indicam que Mamana Bibi foi assassinada ilegalmente", de acordo com a lei humanitária internacional, dizendo que o responsável pelo ataque seja "trazido à Justiça num julgamento limpo".

Outros trechos do relatório detalham os efeitos psicológicos dos frequentes ataques com drones - e da proximidade do voo dessas aeronaves - nas pessoas em terra, destacando que muitos residentes do Waziristão do Norte começaram a tomar remédios para dormir, já que "o constante zumbido dos drones no céu e o medo de serem assassinados torna impossível que se durma naturalmente".

Os relatórios são publicados no momento em que o governo americano indica a intenção de se afastar do uso de drones em favor de outras táticas de combate ao terrorismo. Entretanto, como afirma o relatório, os poucos pronunciamentos do presidente Barack Obama a respeito do tema indicam que ele prefere se afastar da política de ataques com drones a aceitar parâmetros legais para o seu uso.

A possibilidade de funcionários do governo americanos serem responsabilizados por incidentes como o que custou a vida de Mamana Bibi sempre foi remota. Igualmente, parece inevitável que episódios do tipo se repitam. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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