Google Street View via The New York Times
Google Street View via The New York Times

Assassino italiano foragido há 20 anos é encontrado pelo Google Maps

Gioacchino Gammino era membro de máfia da Sicília na década de 80 e foi localizado pela polícia na Espanha

Elisabetta Povoledo / The New York Times, O Estado de S.Paulo

10 de janeiro de 2022 | 20h00

Acusado de homicídio, Gioacchino Gammino, de 61 anos, escapou da prisão de Rebibbia, em Roma, 20 anos atrás e, desde então, vivia como foragido. Ele fugiu para a Espanha, trocou de nome e cortou os laços com sua família, criando uma vida nova e em certa época trabalhando como chef num restaurante italiano.

Mas, no mês passado, investigadores italianos finalmente conseguiram localizá-lo numa cidade a noroeste de Madri, graças em parte a uma ferramenta inesperada: o Google Maps.

"Dizem que a sorte favorece os arrojados", disse o general Nicola Altiero, vice-diretor do Departamento de Investigações Antimáfia italiano, que realizou a operação em conjunto com promotores de Palermo. Ele explicou que os investigadores usaram o Google Maps e o Google Street View para rastrear Gammino, siciliano cujo nome constava da lista de fugitivos mais perigosos da Itália.

Investigadores em Palermo se negaram a comentar como rastrearam Gammino até Galapagar, cidade próxima a Madri, dizendo que alguns aspectos do caso ainda fazem parte de um inquérito em andamento.

Mas Altiero não hesitou em revelar mais. Explicou que os investigadores usaram as ferramentas do Google para procurar um mercadinho de hortifrútis, El Huerto de Manu, que acreditavam que pudesse ter vínculos com o foragido. E encontraram por acaso a imagem de um homem em frente à loja.

O homem na imagem tinha a mesma altura, peso e conformação física que Gammino, disse Altiero, e os investigadores notaram que o número de telefone do mercadinho era o mesmo de um restaurante próximo, La Cocina de Manu, que fechara as portas alguns anos antes.

Mas suas páginas nas redes sociais ainda estavam online. Uma delas trazia uma foto do chef do restaurante ao lado de um forno a lenha usado para assar pizzas. Os investigadores aplicaram tecnologia de progressão de idade a uma foto antiga de Gammino para terem uma ideia de como seria a aparência física do foragido depois de 20 anos e identificaram o chef como o homem procurado.

Investigadores italianos contataram a polícia espanhola que caça foragidos, e Gammino foi preso no dia 17 de dezembro, quando caminhava na rua. Altiero disse que outras pistas foram encontradas nas duas décadas da investigação, mas que a descoberta feita com as ferramentas do Google foi fundamental para a detenção rápida de Gammino. "Topar com a imagem no Google Maps foi um golpe de sorte, mas de qualquer maneira já tínhamos outras evidências que nos teriam levado até ele eventualmente", disse Altiero. "O Google Maps nos levou lá mais rapidamente"

Gammino começou a ter problemas com a Justiça nos anos 80, quando foi investigado por tráfico de drogas. Detetives pensam que ele era membro de um clã "stidda" sediado em Campobello di Licata, cidade a leste de Agrigento, na Sicília. O stidda (estrela, no dialeto siciliano) atraiu integrantes das fileiras de mafiosos que nos anos 80 começaram a se rebelar contra os líderes da máfia siciliana, a Cosa Nostra.

Uma guerra territorial entre o stidda e a Cosa Nostra teria deixado cerca de 200 mortos, segundo declaração do Departamento de Investigações Antimáfia anunciando a prisão de Gammino na Espanha.

Gammino foi preso em 1999, acusado de homicídio. Em 26 de junho de 2002, quando estava detido na prisão de Rebibbia, aguardando julgamento, ele teria saído pela porta da frente do presídio, aproveitando a agitação criada por equipes que filmavam um seriado de TV. Durante os anos foragido, foi condenado à revelia por homicídio doloso, e, em 2014, foi emitida uma ordem europeia de prisão contra ele.

Um promotor em Palermo se negou a dizer se Gammino se envolveu em atividades ilegais na Espanha. Segundo investigadores, a expectativa é a de que ele seja extraditado para a Itália nas próximas semanas para cumprir pena de prisão perpétua.

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