Assassino que mudou história alemã era agente da Stasi

Revelação reabre polêmica sobre morte de estudante, em 1967, durante protesto em Berlim Ocidental

Nicholas Kulish, The New York Times, O Estadao de S.Paulo

28 de maio de 2009 | 00h00

O chamado "tiro que mudou a república" - o disparo de um policial que matou um manifestante desarmado em Berlim Ocidental, em 1967 - pôs em marcha um movimento esquerdista de protesto e colocou a conservadora Alemanha Ocidental no caminho para se tornar o país progressista de hoje. Mas o assassino, apesar de estar trabalhando para a polícia de Berlim Ocidental, atuava como espião da Stasi para a Alemanha Oriental. A revelação foi feita na semana passada, graças a uma pesquisa nos arquivos da extinta polícia secreta do leste alemão, e levantou uma série de questões que subitamente se tornaram tema de um debate nacional. Para a esquerda, a verdadeira lealdade de Karl-Heinz Kurras atinge as fundações do movimento de protesto nascido em 1968. O assassinato conferiu ao movimento uma mentalidade mais clara sobre o que deveria ser combatido, um Estado considerado violento e injusto, mas o suposto vilão fascista do folclore da esquerda era na verdade um socialista convicto. A descoberta traz dúvidas sobre a profundidade da infiltração da Stasi na Alemanha Ocidental, que poderia ser maior do que se pensava. Mas a pergunta mais significativa diz respeito a Kurras: seria apenas um espião, ou teria agido como agente provocador, buscando desestabilizar a Alemanha Ocidental? Os historiadores que encontraram os arquivos revelando a vida dupla de Kurras dizem não haver provas sobre a teoria de que a Stasi foi a responsável pelo assassinato. Funcionários resistiram aos pedidos feitos por grupos de vítimas e outras associações de um novo julgamento para Kurras. Ele foi absolvido em 1968 das acusações de homicídio culposo e mais tarde recebeu permissão para voltar à polícia. Em entrevista concedida ao jornal Bild, Kurras, de 81 anos, confirmou ter sido membro do Partido Comunista da Alemanha Oriental. "Por acaso eu deveria me envergonhar disso?", perguntou. Quanto à Stasi, ele preferiu se esquivar. "Que diferença faz se eu trabalhava para eles? Isso não muda nada."Kurras não nega ter sido o autor do disparo contra Benno Ohnesorg, atingido na nuca, mas garante que o tiro foi acidental. Ele contesta os registros de pagamentos feitos pelo serviço secreto e disse que os agentes responsáveis por acrescentar a informação ao seu arquivo devem ter desviado o dinheiro para os próprios bolsos. INOCENTESe Kurras parecia se encaixar no estereótipo de "policial fascista", Ohnesorg parecia ser a mais inocente das vítimas. Estudante e poeta, ele era casado e sua mulher esperava o primeiro filho deles. No dia do incidente, ele tinha ido protestar contra a visita do líder iraniano, o xá Mohammed Reza Pahlevi. A morte de Ohnesorg causou mobilização. A fotografia de uma mulher segurando sua cabeça enquanto ele jaz no chão está entre as imagens mais simbólicas da Alemanha. Estudantes que poderiam jamais ter se juntado ao movimento de 1968 ficaram comovidos e resolveram participar. Sob um ponto de vista sombrio, o ocorrido tornou-se a justificativa para atos violentos de grupos terroristas como a Facção do Exército Vermelho e o Movimento 2 de Junho, cujo nome se inspira no dia da morte de Ohnesorg. "O maior marco no caminho rumo à violência não ocorreu exatamente como as pessoas pensavam", disse Stefan Aust, ex-editor da revista Der Spiegel. "Seguindo ordens ou não, o simples fato de ele ter sido agente oriental muda muita coisa."

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