Kai Pfaffenbach / Reuters
Kai Pfaffenbach / Reuters

Protestos na Bolívia se radicalizam com início da auditoria eleitoral da OEA

Assembleias populares rejeitam checagem por considerá-la 'uma manobra diversionista' para manter o presidente no poder, e exigem nova votação sem Evo

Redação, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2019 | 01h23
Atualizado 07 de novembro de 2019 | 17h56

LA PAZ - Os protestos contra a polêmica reeleição do presidente Evo Morales se radicalizaram nessa quinta-feira, 31, na Bolívia após o início de uma auditoria das eleições presidenciais, realizada pela Organização dos Estados Americanos (OEA). Assembleias populares nas cidades de La Paz e Santa Cruz rejeitam a checagem e exigem uma nova votação sem Evo.

Os choques violentos entre manifestantes e policiais começaram durante a noite em La Paz, horas depois que a OEA começou a revisar as atas e cédulas de votação.

As assembleias populares, com a participação de milhares de pessoas, decidiram manter os protestos nas ruas, greves e bloqueios de estradas até que haja novas eleições. O comitê de Santa Cruz também pediu a renúncia imediata de Evo e do vice-presidente, Álvaro García.

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As assembleias defenderam "outras eleições sem Evo Morales", rejeitando um segundo turno e a auditoria da OEA por considerá-las "uma manobra diversionista para manter Evo no poder".

"Na Bolívia se respeita a Constituição e não há nenhum artigo que diga que se deve anular as eleições", afirmou Evo em entrevista à rádio Panamericana.

A assembleia popular de La Paz declarou ainda sua "independência" política da candidatura de Carlos Mesa, adversário de Evo, que também rejeita a auditoria da OEA. A revisão do resultado, por uma equipe de 30 técnicos, foi acordada entre o governo e o secretário-geral da OEA, Luis Almagro e pode levar cerca de duas semanas.

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Protestos levaram à auditoria

A auditoria começou em meio a protestos e confrontos nas ruas entre simpatizantes do governo e opositores, iniciados no dia seguinte à realização do pleito e que deixaram dois mortos e cerca de 140 feridos.

O trabalho de recontagem dos votos realizado pelo Tribunal Supremo Eleitoral (TSE) está no centro da polêmica, depois de ter usado dois sistemas tecnológicos que apresentaram, segundo afirmam os críticos e opositores, contradições.

O primeiro é o chamado TREP, de contagem rápida, que apontou um segundo turno entre Evo e Mesa, e o segundo, do cômputo geral oficial definitivo, que declarou Evo como vencedor no primeiro turno com 47,08% dos votos contra Mesa, que teve 36,51%. 

De acordo com a lei, a diferença de 10 pontos permite que Evo, o primeiro presidente indígena da Bolívia, continue governando até 2025.

'Golpe fracassou'

A Igreja Católica expressou na quinta-feira a esperança de que a auditoria leve a um acordo entre o governo e a oposição que permita restaurar a paz.

"Consideramos que uma auditoria, realizada sob condições apropriadas, ou seja, uma auditoria integral do processo eleitoral, acordada e vinculativa, poderia estabelecer as bases para um acordo e contribuir para a pacificação do país", afirmou a Conferência Episcopal Boliviana.

Evo, no poder desde 2006, voltou a dizer na quinta que a oposição colocou em marcha um "golpe de Estado" contra seu governo, que "fracassou" em razão do apoio que recebeu de parte dos mineradores, camponeses e outros trabalhadores.

"Aos movimentos sociais, meu pedido: suspender o bloqueio. E aos irmãos que estão em greve nas cidades: que acabem com a greve para pacificar o país e aguardar os resultados da auditoria" dos especialistas da OEA, disse.

Mesa pede que mobilização continue

Mesa declarou que "esta mobilização deve continuar" até dobrar Evo, mas pediu a seus correligionários que tomem cuidado após a morte de dois manifestantes opositores que bloqueavam uma rua no povoado Montero, perto da cidade de Santa Cruz, reduto da oposição.

Ex-presidente da Bolívia (2003-2005), Mesa exigiu que Evo peça a seus partidários que retirem os bloqueios das estradas, que impedem a chegada de alimentos às cidades.

O opositor também pediu ao governante que "ordene aos militantes do MAS (Movimento ao Socialismo) que participam dessas ações de violência o fim desses atos". / AFP

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