Reuters/ 2004
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Assistente afirma que líder do Taleban no Paquistão está vivo

Declaração pode ser uma manobra para adiar a decisão sobre a sucessão do grupo no país

08 de agosto de 2009 | 08h39

Um assistente de Baitullah Mehsud afirmou neste sábado, 8, que o líder do taleban não morreu em um ataque da CIA, em declaração que contradisse a outro membro do grupo que confirmou a morte do dirigente um dia antes.

 

O líder talibã Hakimullah Mehsud, que dirige combatentes nas regiões tribais de Kurram, Orakzai e Khyber, afirmou hoje a meios de comunicação paquistanesas que o líder dos talibãs está vivo e se encontra escondido em um lugar desconhecido. Hakimullah é primo e íntimo colaborador de Mehsud e é considerado pelos analistas como um dos favoritos para suceder Baitullah como líder do movimento Tehrik-i-Taliban Pakistan (TTP), que aglutina as diferentes facções talibãs do país.

Outro porta-voz do TTP, o clérigo Omar, que tem base no distrito tribal de Bajaur, também alega que Mehsud sobreviveu ao ataque e buscou refúgio em um lugar que não quis revelar, informou à Agência Efe uma fonte próxima ao líder talibã.Segundo ele, Mehsud evitará contato durante os próximos dias por motivos de segurança.

 

Uma fonte da inteligência paquistanesa consultada pela Efe qualificou estas afirmações de "propaganda" e disse que "existem razões de peso" para acreditar que Mehsud morreu no ataque militar americano na localidade de Zangarha, no qual também morreu a esposa mais jovem do rebelde. O porta-voz do Exército, o general Athar Abbas, disse hoje à Efe que a instituição espera que o grupo insurgente ofereça "algum tipo de prova para demonstrar que Mehsud efetivamente não morreu no ataque".

"Temos informações críveis de que morreu, mas vai ser muito complicado confirmar isso plenamente no terreno, ver o corpo, porque se trata de uma zona perigosa e de difícil acesso na qual o Governo e o Exército não têm presença", afirmou.

 

A nova declaração, difundida amplamente nos meios paquistaneses de comunicação, também violou a confiança de funcionários dos Estados Unidos e do Paquistão sobre a morte de Mehsud, e poderia ser uma manobra para adiar a decisão sobre a sucessão.

 

Mesmo sem poder confirmar a morte de Baitullah Mehsud, o homem mais procurado do Paquistão, a Casa Branca anunciou na sexta-feira, 7, que, caso seja verdadeira, a informação é "uma boa notícia". "Se as informações estiverem corretas, o povo paquistanês está mais seguro", declarou o porta-voz do governo americano, Robert Gibbs.

 

A importância de sua morte é comparável à do líder iraquiano da Al-Qaeda, Abu Musav al-Zarqawi, em junho de 2006. Como líder do Tehrik-i-Taleban Paquistanês (TTP), Mehsud controlava cerca de 20 mil rebeldes. O Taleban paquistanês distingue-se do Taleban do Afeganistão, embora esteja relacionado a ele.

 

O Pentágono alertou, no entanto, que o grupo continua uma ameaça ao Paquistão e pode "produzir outro líder para substituir Mehsud".

 

Mehsud, que se intitulava emir do Taleban paquistanês, fez o que pôde nos últimos anos para desestabilizar a nação de 170 milhões de habitantes que possui a bomba nuclear.

 

Declarando estar "em guerra" com o governo, Mehsud ordenou uma onda de ataques suicidas em todo o país. Em geral, recrutava como suicidas homens de famílias pobres e jovens. No ano passado, ataques de homens-bomba mataram 2 mil pessoas, entre soldados, policiais, suspeitos de espionagem e civis. Além das explosões, Mehsud também esteve por trás de alguns sequestros e decapitações.

 

Seu maior feito foi revitalizar a rede jihadista do Paquistão, reunindo grupos distintos de caudilhos da etnia pashtun, combatentes do Punjab e fugitivos da Al-Qaeda de todo o mundo.

 

Embora seja uma pessoa sem instrução, Mehsud era considerado um homem determinado, inteligente e carismático. "Ele emana força e energia", disse Shoaib Hasan, repórter da BBC que conheceu Mehsud em 2008. "E ele tem carisma. Quando fala, seu povo ouve."

 

Segundo um membro da inteligência paquistanesa, Mehsud era diabético, teria quase 40 anos - acredita-se que nasceu em 1970 - e estava doente havia algum tempo.

 

Ascensão

 

Mehsud passou a última parte dos anos 80 lutando contra os russos no Afeganistão. Na década seguinte, combateu ao lado das milícias taleban que invadiram Cabul.

 

Ele ganhou projeção em 2004, ao preencher o vazio deixado por Nek Muhammad, um comandante waziri morto no primeiro ataque de um avião não-tripulado dos EUA no Paquistão.

 

Mehsud explorou os pontos fracos do Exército paquistanês e, em 2005 acertou uma trégua em troca de US$ 500 mil em dinheiro dos contribuintes. Na época, Mehsud havia reorganizado sua milícia no Waziristão do sul.

 

Em 2007, ele humilhou o Exército com o sequestro de mais de 200 soldados, posteriormente libertados - com exceção de três xiitas, que foram decapitados - em troca de 25 prisioneiros taleban.

 

Uma questão frequente diz respeito aos vínculos que Mehsud teria com a inteligência paquistanesa. "Mehsud é definitivamente um aliado de alguns elementos do establishment", disse o analista Khaled Ahmed, no início do ano. "E isso inclui o Exército." Com sua morte, os vínculos do grupo com membros do governo, quaisquer que fossem, foram totalmente quebrados.

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