Assistente social judia sonha em criar filhos em território palestino

Pelo conforto de um condomínio de classe média alta, os 3 mil moradores de Ofra desafiam pressão internacional contra ocupações israelenses

, O Estado de S.Paulo

30 de janeiro de 2011 | 00h00

O ajardinado conjunto residencial em que vive Hila Vatkin, de 36 anos, passaria no Brasil por um condomínio de classe média alta. As ruas são limpas, asfaltadas e sinalizadas. A grama está bem cortada - e irrigada, já que quase não chove. Crianças dão piruetas despreocupadas no playground. Nesse cenário de propaganda de margarina chamado Ofra, vivem 600 famílias judias. "Aqui é tranquilo e não precisamos trancar as portas. Estamos a 20 minutos de carro de Jerusalém e há alguns anos não disparam contra nós na estrada", afirma a assistente social.

Os tiros mencionados eram frequentes na segunda intifada, em 2000. O assentamento, um enclave judeu entre povoados árabes, em terreno destinado a um país árabe, anda calmo.

Segundo Hila, os 3 mil moradores de Ofra são religiosos e vivem na Cisjordânia "por ideologia". Isso quer dizer, primeiro, que as famílias são numerosas - ela tem "só" quatro filhos, mas há quem tenha mais de dez. Em segundo lugar, o shabat é respeitado com rigidez. Entre a noite de sexta e a de sábado, não se usam equipamentos eletrônicos e cozinha-se com antecedência para estocar comida. Algumas famílias, mais tradicionais, cortam o papel higiênico também antes, para despender o mínimo de esforço durante o shabat.

Um segundo grupo de israelenses, ao procurar a Cisjordânia, pensa antes no bolso que na fé. Ontem, uma residência de 630m ² com oito quartos (as famílias são grandes em Ofra) era oferecido em um site por 1,350 milhão de shekels (R$ 618 mil). Em Tel-Aviv, não se compra um apartamento de três quartos por esse valor. Alguns dos 121 assentamentos da Cisjordânia oferecem ainda isenção de impostos.

A multiplicação de novos vizinhos e de crianças explica a demanda frequente dos colonos por mais casas. A ONU e mesmo os EUA, aliado israelense, pressionam Israel para que congele as construções. Em setembro acabou a última paralisação, que na prática os colonos desrespeitavam. Em Ofra, levantaram-se dezenas de casas de madeira - como não tinham fundações, burlava-se a lei. Estima-se que 1,6 mil moradias tenham sido erguidas ilegalmente na Cisjordânia, a maioria com mão de obra palestina. Desde o fim da moratória,1.712 novas casas foram iniciadas, segundo a organização Peace Now. Isso afastou os palestinos das negociações.

Há um terceiro grupo de israelenses que procura a Cisjordânia sob a alegação de proteger Israel militarmente. "Se sairmos da Cisjordânia e o Hamas tomar o poder aqui, Israel estará em perigo real", argumenta o presidente da associação que representa as colônias do norte da Cisjordânia, Daniel Dayan. Uma dos 8 mil colonos que viviam em Gaza até 2005, Ganit Farham tem opinião semelhante. "Deixamos os assentamentos em Gaza e recebemos foguetes diários em troca. O fim dos assentamentos não significa paz", afirma.

Como cidadãos israelenses, os assentados na Cisjordânia têm direito a voto. Nas últimas eleições, cerca de 90% dos eleitores de Ofra optaram pelo partido de direita Likud, do presidente Binyamin Netanyahu. Uma de suas bandeiras é manter as colônias na Cisjordânia. Outra é dissuadir os refugiados palestinos de voltar às cidades de onde saíram, hoje parte de Israel.

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