David Moir/EFE
David Moir/EFE

Associação judaica em Viena ajuda refugiados muçulmanos a refazerem suas vidas

Fundada em 2015, Shalom Alaikum foi criada com o objetivo de eliminar os preconceitos entre pessoas de origem judia e muçulmana

O Estado de S.Paulo

13 de março de 2017 | 07h00

VIENA - Uma associação judaica em Viena chamada Shalom Alaikum é o apoio inesperado que encontraram centenas de refugiados muçulmanos que tentam refazer suas vidas na Áustria.

Sentados em círculo sobre um tapete no chão, os membros de uma família de refugiados afegãos lembraram a difícil viagem que percorreram até chegarem a Viena. Ao lado destes, enquanto ouvia suas palavras, uma mulher judia acariciava a mais nova, uma bebê de sete meses.

Ela é Golda Schlaff, uma das responsáveis pela Shalom Alaikum, fundada em Viena em 2015 para ajudar os refugiados muçulmanos a se adaptarem a uma nova cultura. Seu nome é uma mistura entre a palavra em hebraico "Shalom" ("Paz") e a árabe "Alaikum" ("esteja contigo"), e foi criada com o objetivo de eliminar os preconceitos entre judeus e muçulmanos.

"Todos temos diferentes maneiras de crer no mesmo Deus", disse Golda, que, até o momento, ajudou mais de 35 famílias, cerca de 200 pessoas, de países como Afeganistão, Argélia, Iraque, Irã, Nigéria e Síria, com as quais nunca teve qualquer problema por suas crenças distintas.

Apesar de a associação ter sido concebida como judaica e seus responsáveis professarem esta fé, seu valor fundamental é a "tolerância", afirmou Golda, e por isso acolhem voluntários de qualquer crença.

O financiamento é oriundo de doações particulares e, em outubro de 2016, receberam um prêmio de 2 mil euros do Ministério das Relações Exteriores austríaco.

A família de Zohal, que prefere manter seu sobrenome em anonimato, só tem palavras de agradecimento para a Shalom Alaikum por toda a ajuda que recebeu, segundo declarou a jovem de 18 anos, que chegou a Viena há um ano e meio com sua avó, seus pais, cinco irmãos e seu noivo, após percorrer centenas de quilômetros a pé desde a província afegã de Parwan.

A Shalom Alaikum se encarrega de encontrar escolas para as crianças refugiadas que não têm acesso automático à educação obrigatória austríaca por estarem fora da categoria de idade, explicou Golda.

Zohal, assim como seu irmão de 17 anos, conseguiu entrar na educação pública e só faltam quatro anos para ela terminar o ensino médio. Depois, se conseguir entrar na universidade, quer ser médica, o mesmo desejo de dois de seus irmãos menores, de 13 e 12 anos.

Para isso, Zohal sabe que tem de estudar muito alemão e inglês, idioma que aprende de forma autodidata lendo contos de crianças pequenas quando chega em casa, enquanto espera com sua família a entrevista para poder obter o direito de asilo.

Também já dominam o alemão as filhas de 10 e 11 anos de Khaled e Asma, do Iraque, que cruzaram a pé as fronteiras de Turquia, Grécia, Macedônia, Sérvia e Hungria até chegarem à Áustria, onde ficaram pela impossibilidade de continuar avançando, pois estavam extenuados.

Natural de Bagdá, a família iraquiana tentou encontrar paz em outras duas cidades de seu país natal antes de iniciar seu exílio ao exterior, mas acabou sendo impossível, explicou Khaled, que também relatou que tiveram de dormir na rua na Grécia.

Khaled, mecânico, e Asma, engenheira, não podem trabalhar na Áustria até que consigam o asilo, pelo qual estão esperando há um ano e meio, e utilizam seu tempo para aprender alemão.

Graças à associação, segundo Golda, os refugiados podem ter acesso a cursos mais avançados que, na maioria dos casos, o sistema austríaco não cobre, para que possam ter mais oportunidades no mercado de trabalho.

Nenhuma das duas famílias cogita voltar, em um futuro próximo, a seus países de origem, já que, dada a instabilidade da região, mesmo que haja uma interrupção das hostilidades, não é possível vislumbrar uma paz duradoura, lamentou Khaled. / EFE

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