Hamid Forutan/Efe
Hamid Forutan/Efe

'Atacar iranianos seria um grande erro'

De acordo com diplomata sueco, o diálogo é a única forma de impedir o avanço do programa nuclear iraniano

Entrevista com

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2011 | 03h05

GENEBRA - Um ataque contra o Irã será "desastroso" e dará início a uma "guerra que pode sair do controle". O alerta é de um dos principais nomes da diplomacia mundial, o sueco Hans Blix, ex-chefe dos inspetores de armas da ONU para o Iraque e ex-diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Estado por telefone.

Estado: O que ocorrerá após a publicação do relatório da AIEA?

Hans Blix: Haverá um debate intenso dentro do conselho da AIEA e no Conselho de Segurança da ONU. Já sabemos que muitos países aproveitarão a ocasião para dizer que estão preocupados e pressionarão por mais sanções.

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Estado: O que o sr. achou do relatório?

Hans Blix: É muito bom que tudo isso tenha sido publicado. Antes, a AIEA se limitava a dizer que havia recebido informações de serviços de inteligência apontando para isso ou aquilo. Agora, ela comparou dados recebidos com os que ela mesmo tinha. O resultado foi uma série de conclusões concretas. Muitas das informações não são novas, mas, juntas, mostram um cenário diferente. O que é ainda mais positivo é que o relatório ajudou na transparência do debate.

Estado: De que forma?

Hans Blix: Hoje, o mundo é obrigado a se perguntar o que fazer diante dessa realidade. Não era mistério para ninguém que o Irã estava enriquecendo urânio. Bilhões de dólares foram gastos nos últimos anos em uma região que está armada até os dentes por conta dessa situação.

Estado: O que o sr. acha da possibilidade de um ataque militar ao Irã?

Hans Blix: Isso seria desastroso para a humanidade, algo que poderia sair do controle de todos. Posso até entender o medo de Israel diante da situação. O Ocidente pode até tentar, mas não sabe todos os lugares que deve atacar. Na realidade, um ataque fará o Irã correr para ter uma bomba nuclear mais rapidamente e seria capaz de unir a população contra a ameaça externa.

Estado: Qual a repercussão regional de um conflito?

Hans Blix: Esse é o segundo grande problema. O Irã não ficará sentado, vendo suas instalações sendo bombardeadas sem reagir. Teerã tem grandes amigos em Gaza e no Líbano. Essas regiões serão incendiadas.

Estado: Qual a forma de impedir que o país obtenha a bomba nuclear?

Hans Blix: Essa é a pergunta que diplomatas e líderes políticos se fazem. Há como amedrontar um país a ponto de conseguir que ele não se arme? Estamos descobrindo que não. Não funcionou na Coreia do Norte e não está funcionando no Irã.

Estado: O que o sr. sugere?

Hans Blix: Conversar, conversar e conversar. O diálogo é necessário.

Estado: Mas o Ocidente diz que tem feito isso há anos.

Hans Blix: O problema é que o Ocidente sempre senta para dialogar com uma atitude neocolonialista. Colocamos precondições, como o fim do enriquecimento de urânio. Isso não funciona. Temos de oferecer algo em troca.

Estado: Como o quê?

Hans Blix: A garantia de que Teerã não será atacada. O Irã precisa se sentir seguro para aceitar negociar. Atacar de forma preventiva, como foi feito no Iraque, seria um grande erro. Poderíamos também revelar os estoques de armas nucleares de Israel e obter um compromisso para acabar com elas.

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