Planet Labs Inc/via REUTERS
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Ataque à Arábia Saudita pode aumentar ainda mais o preço do petróleo

Rapidez para retomar produção e chances de confronto militar são as questões cruciais para o reino saudita

The Economist, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2019 | 05h40

As artérias por onde passa o petróleo da Arábia Saudita, maior exportadora do mundo do produto, que vai para os consumidores em todo o planeta, sempre foram um alvo tentador. Com um rompimento dos enormes oleodutos do país, estações de bombeamento, os tanques de armazenamento e as grandes refinarias – não é o país apenas que sofre uma sangria, mas a economia global.

Outros já tentaram, mas não conseguiram. Em 2006 militantes da Al-Qaeda planejaram um ataque contra uma instalação de processamento de petróleo saudita a leste do país. Foram reprimidos pelos guardas. Agora os Houthis, grupo rebelde xiita do norte do Iêmen que é apoiado pelo Irã aparentemente conseguiu desfechar um golpe humilhante contra os sauditas e seus aliados ocidentais, que limitou à metade a produção de petróleo.

Em 14 de setembro drones e mísseis lançados pelo grupo atingiram a planta de Abqaiq e o campos de petróleo de Khurais, provocando enormes incêndios. A empresa estatal Saudi Aramco suspendeu 60% da produção de petróleo do país e 6% da produção mundial.

Alguns analistas acreditam que os preços do petróleo devem disparar se a produção não for restaurada em breve. A Aramco prometeu fornecer uma atualização da extensão dos danos em cerca de 48 horas, mas uma fonte informou à Reuters que os reparos levarão “semanas, não dias".

Os ataques podem inflamar ainda mais as tensas relações no Golfo Pérsico e entre Irã e Estados Unidos. Os primeiros a reivindicar o ataque foram os Houthis e o grupo tem meios como motivos para isto. O grupo rebelde trava uma guerra no Iêmen contra uma coalizão lideradas pelos sauditas e repetidas vezes usou drones e mísseis balísticos que atingiram aeroportos, bases militares e outros alvos na Arábia Saudita.

Desde o ano passado, de acordo com investigadores das Nações Unidas, os Houthis têm se abastecido de drones com poder de alcance de 1.500 quilômetros, o suficiente para atingir Abqaiq e Khurais. Destroços do mais recente ataque se assemelham à fuselagem do Quds-1, míssil usado pelos Houthis.

Ataque contra Arábia Saudita veio do Iraque

Mas autoridades americanas sugerem que o ataque teve origem não no Iêmen, mas no Iraque, e foi obra de uma milícia apoiada pelos iranianos. Mike Pompeo, secretário de Estado americano, afirmou que “O Irã agora lançou um ataque sem precedentes contra o aprovisionamento de energia do mundo”.

O governo fez uma afirmação similar em maio depois que drones atingiram um importante oleoduto que transporta o petróleo através de toda a Arábia Saudita. Até agora, porém, os EUA não apresentaram provas apoiando essa alegação.

Para a Arábia Saudita a origem do ataque é quase imaterial. Ela o vincula, como em ataques anteriores, ao seu arqui-inimigo Irã, que fornece dinheiro e armas para os Houthis e outras milícias regionais. Os mísseis usados para atacar as instalações da Aramco quase

certamente são baseados nos modelos iranianos.

Os sauditas apoiam fortemente a campanha de “máxima pressão” de Donald Trump, que tem por meta, entre outras coisas, usar a força e a violência para forçar o Irã a pôr fim a esse apoio. No ano passado o presidente americano retirou os Estados Unidos do acordo nuclear firmado em 2015 entre o Irã e potências mundiais  e estabeleceu sanções contra sua economia.

As exportações de petróleo iranianas caíram de 2,8 milhões de barris diários para menos de um milhão. E O Irã começou a revidar. Infringiu alguns dos limites estabelecidos no acordo no caso do seu programa nuclear, sabotou e confiscou navios

petroleiros no Golfo Pérsico e deteve visitantes ocidentais, mantendo-os reféns.

Mas recentemente Trump passou a adotar uma estratégia de menos confronto. Propôs uma reunião com o presidente iraniano Hassan Ruhani.  Houve conversas sobre um encontro paralelo à assembleia geral das Nações Unidas no final do mês, embora objeções dos radicais iranianos tornem improvável esse encontro.

Além disto, Trump parece apoiar uma proposta francesa de oferecer ao Irã uma “linha de crédito” de US$ 15 bilhões que ajudaria o país a administrar as próprias sanções estabelecidas contra ele. Máxima pressão se tornou máxima perplexidade.

O ataque contra a Aramco, contudo, pode fazer Trump voltar à sua posição anterior, mais radical, particularmente se houver um forte aumento dos preços do petróleo. Mas suas opções são limitadas. A economia combalida do Irã não dá espaço para novas sanções. Alguns parlamentares linha dura em Washington, como Lindsey Graham, senador republicano, falam em resposta militar.

Trump ordenou ataques aéreos contra o Irã em junho, depois que os iranianos abateram um drone americano, mas no último minuto cancelou a ordem, entendendo que a resposta era desproporcional. Um presidente relutante em envolver os EUA no conflito militar no Oriente Médio pode entender que suas opções são apenas estas – ou não fazer nada.

Se optar por não fazer nada, isto aprofundará a sensação de intranquilidade em Riad. Ataques houthis frequentes revelaram lacunas preocupantes nas defesas aéreas sauditas, sobretudo no momento em que o mais próximo aliado da Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, anuncia, neste fim de semana,  a retirada de suas tropas do Iêmen, onde os dois países têm enormes desacordos no tocante a táticas e estratégia numa guerra que hoje chegou a um impasse. E os Emirados Árabes também adotam uma posição menos hostil com relação ao Irã, recusando-se a acusar os iranianos de sabotarem quatro petroleiros em águas dos Emirados.

Ataques podem afetar preço do petróleo

Além disto, os ataques ocorrem num momento delicado para os mercados de petróleo em geral e para a Aramco em particular, que vem se preparando para registrar em bolsa parte das suas ações na que deverá ser a maior oferta pública inicial jamais vista até hoje.

Antecipando esse registro, a Arábia Saudita está ansiosa para mostrar que apoia o preço do petróleo e que pode produzir o bruto de modo eficaz apesar das crescentes ameaças à segurança. Os recentes eventos revelam os limites da sua capacidade nos dois casos.

O preço do petróleo foi particularmente volátil no ano passado. Saltou e despencou alternadamente à medida que as sanções que atingiram o petróleo venezuelano e iraniano alimentaram temores de que a demanda poderia extrapolar a oferta,  e com o nervosismo com a desaceleração do crescimento econômico também aumentando a inquietação com uma demanda em queda.

A Arábia Saudita tem liderado os esforços para estabilizar os preços. Em dezembro a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) e outros aliados, incluindo a Rússia, anunciaram um corte da em 1,2 milhões de barris por dia. A Arábia Saudita regularmente reduz a produção mais do que promete, num esforço para respaldar o preço do petróleo, quando outros membros da OPEP, como o Iraque e a Nigéria, se recusam a diminuir a produção.

Tais esforços sem dúvida têm impedido um mergulho dos preços. Mesmo assim o preço do Brent em 13 de setembro, antes dos ataques deste fim de semana, estava em US$ 60, quase 20% abaixo do preço cotado em abril.

Para os mercados de petróleo as dúvidas agora são no tocante a quão rapidamente a Arábia Saudita conseguirá retomar a produção e se os ataques podem desencadear um confronto militar mais amplo. Os riscos de um confronto estão aumentando.

Há meses autoridades no Golfo vêm alertando que a Arábia Saudita acabaria atacando, em retaliação, o Irã, pelos constantes ataques de drones e mísseis do Iêmen. Até agora o país tem se contentado com a pressão exercida por Trump contra o Irã.

Mas se a Arábia Saudita achar que não pode confiar em Trump no sentido e garantir sua segurança, então Mohammad bin Salman, o impetuoso e temerário príncipe da coroa saudita, poderá se sentir compelido a agir por sua própria conta e risco.

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