Mahmud Hams/AFP
Mahmud Hams/AFP

Ataque a estádios é 'humilhação', dizem palestinos

Israelenses afirmam que locais serviam de depósito de foguetes do Hamas; bombardeios expulsam até circo egípcio que se apresentava em Gaza

ROBERTO SIMON, ENVIADO ESPECIAL / FAIXA DE GAZA, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2012 | 02h16

CIDADE DE GAZA - Os estádios Al-Yarmouk e Palestine, os maiores da Faixa de Gaza, receberam na quinta-feira, 22, milhares de pessoas. Não havia jogo, tampouco torcida nas arquibancadas. O público foi ver a destruição causada pelos bombardeios israelenses, que abriram crateras no gramado e arrasaram parte das arquibancadas.

A aviação de Israel fez desaparecer um dos gols do Al-Yarmouk e, do outro lado do campo, errou as traves por pouco. "Terminou um a zero esse jogo", disse Bakr Abu Moussa, de 42 anos, que levou o filho para ver o resultado da ofensiva israelense. "Israel faz isso para nos humilhar."

O Exército israelense afirma que os estádios, situados em áreas cercadas por casas, estavam sendo usados como depósito de foguetes e abrigo para militantes do Hamas e do grupo Jihad Islâmica. Não há registro de mortos nos dois bombardeios.

Antes de o Hamas expulsar de Gaza o rival Fatah, em 2007, o Palestine, maior estádio da região, lotava ao receber o Al-Ahly, time do Egito, ou a seleção da Jordânia. O cantor egípcio Mustafa Kemal e a banda jordaniana Toyour al-Jana, famosos no mundo árabe, também arrastaram multidões ao local destruído.

Com o poder islâmico radical em Gaza e o bloqueio israelense, o Palestine deixou de receber estrelas do futebol e da música. Após os oito dias de ataques na Operação Pilar de Defesa, parte da arquibancada cedeu até o chão. As bombas também destruíram a entrada.

Do gramado, Yahia Abu Mohamed, faxineiro do estádio, impedia que os curiosos tentassem subir nos escombros. Dois garotos que desrespeitaram as ordens do senhor de 52 anos foram expulsos do Palestine, com Mohamed levando-os pelo braço até a saída.

"Não havia ninguém do Hamas aqui, nem foguetes nem nada. Este é um lugar de esporte e não de política. Mas Israel não quer nem sequer permitir lazer aos moradores de Gaza", disse o faxineiro. Ele afirma que o ataque foi uma "vingança" das forças israelenses após os disparos de foguetes contra Tel-Aviv.

A violência em Gaza também acabou com outra atração: o circo. Nas celebrações do fim do Ramadã, um grupo circense do Egito montou um picadeiro em um espaço aberto de Al-Rimal, no centro de Gaza. Com o sucesso, decidiram estender a permanência, até que Israel matou Ahmed Jabari, líder do braço militar do Hamas, estopim para a crise. Quando as bombas começaram a cair, o circo foi embora.

Parte dos moradores de Gaza acredita que o bloqueio deve arrefecer em breve, em parte porque Israel estaria disposto a ceder mais, em parte porque o Egito, sob o presidente Mohamed Morsi, está mudando as regras do jogo. Durante os oito dias de violência, Morsi permitiu a entrada de palestinos no Egito.

O faxineiro do Palestine acredita que Gaza voltará a receber times e músicos como antes. Estádios não são difíceis de reconstruir, afirma Abu Mohamed. "E Morsi, um amigo verdadeiro dos palestinos, ficará feliz em emprestar o Al-Ahly novamente."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.