EFE/EPA/SEBASTIEN NOGIER
EFE/EPA/SEBASTIEN NOGIER

Ataque a faca deixa ao menos três mortos na França; suspeito é preso

Prefeito de Nice, cidade onde ocorreu o ataque, afirmou que 'tudo sugere um ataque terrorista'; Ministro do Interior convocou reunião de crise para acompanhar o caso

Renato Vasconcelos, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2020 | 06h22
Atualizado 29 de outubro de 2020 | 21h59

Um homem armado com uma faca atacou várias pessoas na saída da igreja de Notre-Dame, em Nice, na França, na manhã desta quinta-feira, 29. De acordo com a imprensa francesa, pelo menos três pessoas morreram no ataque, duas delas dentro da igreja. Autoridades francesas falam em atentado terrorista.

De acordo com o jornal francês 'Le Parisien', pelo menos uma das vítimas foi degolada pelo agressor, que tentou se esconder em um banheiro dentro da igreja após o ataque. O homem foi baleado e preso pela polícia.

Ainda de acordo com a publicação francesa, o prefeito de Nice, Christian Estrosi, teria afirmado que o homem, enquanto era socorrido, repetia a frase "Allahu Akbar" ("Alá é grande", em português). Em uma publicação no Twitter, Estrosi comparou o ataque em Nice ao do professor Samuel Paty, morto há 13 dias por um adolescente muçulmano após mostrar caricaturas do profeta Maomé durante uma aula.

"Treze dias depois de Samuel Paty, nosso país não pode mais estar satisfeito com leis de paz para destruir o islamo-fascismo", escreveu o prefeito de Nice. Em outra publicação, Estrosi afirma que duas pessoas foram mortas dentro da igreja e que Nice "pagou um preço muito alto, como nosso país nos últimos anos."

De acordo com o jornal 'Le Figaro', as duas vítimas mortas dentro da igreja são uma mulher idosa, que teria sido quase decapitada próximo a uma pia de água benta, e um sacristão da igreja. A terceira vítima, uma mulher, teria conseguido fugir e se refugiar em um café, mas foi morta com múltiplas facadas pelo agressor. A publicação também afirma que o agressor seria um jovem de aproximadamente 20 anos, identificado apenas como "Brahim". Ele teria dito à polícia que agiu sozinho.

O ministro do Interior, Gerald Darmanin, convocou uma reunião de crise para acompanhar o caso. Em uma mensagem publicada em sua conta no Twitter, Darmanin disse informou que uma operação policial estava em curso e que havia conversado com o prefeito da cidade.

O presidente francês, Emmanuel Macron, também participou da reunião de crise, segundo a imprensa francesa. É esperado que Macron vá até Nice ainda na manhã desta quinta, para acompanhar a situação pessoalmente.

O esquadrão antibomba da polícia francesa esteve no local para vistoriar materiais suspeitos encontrados dentro da igreja após o ataque. A promotoria antiterrorismo do país também abriu uma investigação para o caso.

Crise entre França e o mundo islâmico

A relação entre a França e o mundo islâmico passa por mais um momento de tensão nos últimos meses. Pelo menos três ataques a faca, contando o de Nice, tiveram clara motivação religiosa. Ao todo, quatro pessoas morreram - duas delas degoladas - e duas ficaram feridas.

Em 25 de setembro, duas pessoas foram esfaqueadas próximas à antiga sede do jornal satírico Charlie Hebdo, alvo de um ataque terrorista em 2015. Dois suspeitos foram presos pela polícia no mesmo dia. Menos de um mês depois, em 16 de outubro, o professor de história Samuel Paty foi degolado perto de uma escola em Conflans Saint-Honorine, uma cidade de 35 mil habitantes a cerca de 50 km ao noroeste de Paris. Paty havia mostrado caricaturas do profeta islâmico Maomé em uma aula sobre liberdade de expressão.

Os dois casos anteriores ao de Nice estão relacionados a um debate antigo, mas sempre latente na França, que é o conflito entre a liberdade de expressão e a retratação de Maomé - o que é proibida pelos preceitos islâmicos. A premissa motivou os ataques contra o Charlie Hebdo em 2015 e voltou à tona com o julgamento dos suspeitos do atentado e pela republicação das charges pelo jornal satírico no começo de setembro.

Após a republicação, Macron declarou publicamente que, na França, todos tinham "liberdade para blasfemar", referindo-se à liberdade de expressão. A fala do presidente francês repercutiu entre os países muçulmanos, motivando reações graves de líderes de nações islâmicas. Na primeira quinzena de setembro, antes do primeiro ataque, o aiatolá do Irã, Ali Khamenei, classificou a republicação das charges como "imperdoável" e afirmou que o pretexto da liberdade de expressão invocado "por alguns políticos franceses" para justificar o "grande crime" (no Irã, a publicação de imagens do profeta podem ser punida com pena de morte) deveria ser rejeitado "como equivocado e demagógico".

Mesmo após o caso de Paty, Macron reiterou que a França não abriria mão da liberdade de expressão, o que voltou a provocar reações de líderes mundiais islâmicos. No sábado, 24, produtos franceses começaram a ser retirados das prateleiras dos supermercados em Doha, no Catar. Na segunda-feira, 26, vários países árabes e muçulmanos pediram boicote a produtos franceses.

O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, pediu à população que aderisse ao boicote. "Assim como na França alguns dizem 'não comprem as marcas turcas', me dirijo à minha nação: Acima de tudo, não prestem atenção nas marcas francesas, não as comprem", declarou Erdogan em um discurso em Ancara. "Há uma campanha de linchamento contra os muçulmanos semelhante à dos judeus da Europa antes da 2.ª Guerra. As autoridades europeias devem dizer 'pare' à campanha de ódio liderada por Macron", acrescentou o presidente turco.

De acordo com um levantamento feito pela agência de notícias espanhola EFE, um total de 264 pessoas foram mortas em atentados liderados por grupos terroristas islâmicos na França, desde março de 2012. Os alvos mais comuns, segundo a publicação, são policiais e agentes públicos, a comunidade judaica e jornalistas. No entanto, ataques indiscriminados e mirando eventos públicos também ocorreram./Com informações de Le Figaro, Le Parisien, AFP e EFE

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.