Ataque a Irã não é opção

Preço de ação militar seria muito alto para os EUA

Roger Cohen *, International Herald Tribune, O Estadao de S.Paulo

06 de fevereiro de 2009 | 00h00

No que diz respeito ao Irã, a escolha da metáfora é limitada. "Nunca levaria uma opção militar para a mesa de negociações", declarou Barack Obama durante a campanha, posição que manteve inalterada ao se tornar presidente. "Não retiraremos nenhuma opção da mesa", afirmou a secretária de Estado, Hillary Clinton, em sua audiência de confirmação no Senado. O secretário da Defesa, Robert Gates, fez a declaração da seguinte maneira: "A opção militar deve ser mantida sobre a mesa." Os três também falaram em diálogo. Mas a questão, mais premente desde que o Irã pôs em órbita seu satélite de comunicações esta semana, permanece: Em que consiste, de fato, esta ameaça de força e para que propósito serve? Li sobre as hipóteses referentes à possibilidade de os EUA bombardearem instalações nucleares iranianas ou bases militares do Irã a fim de limitar sua resposta, à imposição de um bloqueio naval e à infiltração de forças especiais. Depois de oito anos, esses planos continuam seguem no Pentágono. A tudo isso, respondo: Esperem um pouco. Afinal, os EUA participaram do golpe no Irã, em 1953, que depôs o primeiro governo democraticamente eleito do Oriente Médio de que se tem notícia. Logo, um ataque americano levaria os demônios iranianos de 56 anos a concentrar todo o ódio da república islâmica contra os EUA durante o próximo meio século. De Basra, via Cabul, até os bairros populares de Paris, a revolta muçulmana explodiria. O Exército iraniano não é o Exército de Israel, mas não se deve duvidar de sua obstinada eficiência. Os foguetes do Hezbollah e do Hamas, e os mísseis de longo alcance iranianos, testados recentemente, atingiriam Israel.O caos ameaçaria os países do Golfo, os mercados petrolíferos e as campanhas dos EUA no Iraque e no Afeganistão. A frente de batalha americana, na primeira década do século 21, em uma época de desastre econômico nacional, estenderia-se por milhares de quilômetros através do mundo muçulmano, do oeste do Iraque ao leste do Afeganistão. É duvidoso bombardeios conseguissem acabar com as ambições nucleares iranianas; portanto, tudo isso poderia ser o preço a pagar por adiar em um ano ou dois a bomba iraniana - ou o domínio da produção de material físsil. Em suma, a opção militar americana não é uma opção. É impensável. Esse foi o cálice envenenado que Obama recebeu de George W. Bush, que relegou o Irã ao eixo do mal e rejeitou estratégias viáveis do ex-presidente moderado, Mohamed Khatami.A verdadeira "linha vermelha" será estabelecida por Israel. Binyamin Netanyahu, favorito para o cargo de primeiro-ministro israelense nas eleições da próxima semana, disse que será feito "tudo o que for necessário" para impedir que o Irã tenha a bomba.Acredito nele. Não é possível mudar as lentes israelenses, por mais distorcida que seja a imagem que elas captam de um mundo mudado. Isso pode significar um ataque israelense ao Irã em um ano. Se a opção militar dos EUA é impensável, igualmente impensável é que os EUA abandonem Israel. É este o dilema de Obama. * Roger Cohen é colunista

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