TIMA via REUTERS
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Ataque a mausoléu é agressão ao próprio 'pai da revolução' 

O luxuoso complexo é 'um testamento espiritual e político da Revolução Islâmica de 1979'

Amanda Erickson / The Washington Post , O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2017 | 05h00

O Estado Islâmico (EI) atingiu dois grandes alvos no Irã, matando pelo menos 12 pessoas e ferindo dezenas. Um deles foi o Parlamento iraniano; o outro, um dos locais mais sagrados do Irã: o santuário do aiatolá Ruollah Khomeini, considerado “uma das maiores realizações arquitetônicas da República Islâmica”.

O luxuoso complexo é “um testamento espiritual e político da Revolução Islâmica de 1979”. Um ataque ao santuário (seria comparável talvez a um atentado contra o Túmulo do Soldado Desconhecido dos EUA ) – é um ataque à identidade política do país e a um dos mais importantes monumentos do Islã xiita. 

Como disse Marc Martinez, analista e especialista em Irã do Instituto Delma, nos Emirados Árabes Unidos, a própria Revolução Islâmica foi atacada. O resultado, segundo ele, pode ser uma exacerbação do já forte sentimento nacionalista do país.

A importância do santuário se deve em grande parte ao próprio Khomeini. Nos anos 1960, o aiatolá era um dos mais duros oponentes ao regime do xá e ao Ocidente. Foi preso e exilado na Turquia em 1964. Em seguida, mudou-se para o Iraque, onde viveu 13 anos, e daí para a periferia de Paris, retornando brevemente ao Irã pouco antes da queda do governo do xá, em fevereiro de 1979.

Após sua chegada ao Irã, em 1º de fevereiro de 1979, Khomeini fez um grande pronunciamento público no cemitério de Behesht-e-Zahra, local de seu futuro santuário, que era estreitamente associado aos opositores do regime do xá. 

Muitos dos que foram mortos durante os protestos contra o xá em 1978 estão enterrados lá. Em novembro de 1979, uma nova Constituição, sob a qual Khomeini tornou-se “líder supremo” do Irã, foi esmagadoramente aprovada.

Khomeini declarou o Irã uma República Islâmica, introduzindo no país a lei islâmica e rompendo com os Estados Unidos.

Quando o aiatolá morreu, em 3 de junho de 1989, a construção do santuário começou a todo vapor. No caótico funeral do líder, milhões de inconsoláveis adeptos impediram o cortejo de avançar para o cemitério. A multidão se apossou do caixão e começou a passá-lo sobre as cabeças. Quando o corpo caiu, a massa tentou rasgar as roupas do defunto para guardar os retalhos como relíquia.

O santuário hoje é imenso – do tamanho do Terminal 4 do Aeroporto de Heathrow. O complexo inclui um pátio gigantesco e várias construções, além do cemitério. Mais de 12 mil tapetes cobrem os assoalhos. O mausoléu de Khomeini é coberto por uma redoma de aço reticulado através da qual os peregrinos rendem tributo. A previsão é que algum dia milhares de espelhos venham a adornar o teto.

Quase toda obra de arquitetura do local é carregada de simbolismo. Duas torres de 91 metros flanqueiam o santuário. O enorme domo central é dourado e adornado com 72 tulipas que simbolizam os 71 mártires que lutaram em Karbala no ano 680, um momento decisivo na formação do xiismo.

O local é igualmente túmulo de muitos dos soldados mortos na Guerra Irã-Iraque. A mulher do aiatolá também está enterrada lá, ao lado de personalidades políticas. Neste ano, o ex-presidente Ali Akbar Hashemi Rafsanjani também foi ali sepultado.

Visitantes lotam o mausoléu, particularmente durante o mês sagrado do Ramadã. Em junho, aniversário da morte de Khomeini, centenas de milhares de pessoas visitam o local. No mês depois do Ramadã – Muharram –, flui água tingida de vermelho das fontes que circundam o santuário. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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