Tim Ireland / AP
Tim Ireland / AP

Ataque a muçulmanos em Londres é tudo o que o Estado Islâmico queria

Grupo deve usar violência contra comunidade islâmica no Reino Unido para recrutar mais soldados

Rick Noack / The Washington Post*, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2017 | 05h00

Nas primeiras horas da manhã de ontem,as redes sociais britânicas estavam repletas de mensagens com as pessoas perguntando por que as autoridades demoraram tanto tempo para levantar publicamente a possibilidade de um ataque terrorista antimuçulmano.

Este é mais um incidente em que um único grupo tem a ganhar, não a perder: o Estado Islâmico. Em um manual publicado há dois anos, os autores ligados ao EI abertamente falavam de um incidente como este para provocar mais violência. “Quando muçulmanos e mesquitas forem atacados por neonazistas, os muçulmanos irão contra-atacar”, diz o manual.

Até agora, não há nenhuma indicação de que foi um simpatizante da direita ou um neonazista quem perpetrou o ataque, embora seja uma ideia bastante cogitada na internet. 

Em outras publicações, o Estado Islâmico tem afirmado seu objetivo de provocar uma revolta antimuçulmana na sociedade ocidental para atrair mais simpatizantes e recrutar novos adeptos. Críticos questionam se a primeira ministra Theresa May já não teria caído nessa armadilha. No início deste mês, ela prometeu uma estratégia mais dura no combate ao terrorismo e prometeu testar os limites da lei. Falando ao tabloide Sun, antes das eleições gerais, May disse que “se as leis sobre direitos humanos se interpuserem” na proteção dos britânicos, ela mudaria as leis. Os comentários que deixaram a comunidade muçulmana inquieta.

Há dois anos, agências de propaganda do EI expuseram como o grupo esperava que uma reação mais agressiva dos governos insuflaria o ódio da população contra os muçulmanos. “Os muçulmanos no Ocidente rapidamente terão de escolher: ou se tornam apóstatas ou (emigram) para o Estado Islâmico”, escreveram os autores de publicação de propaganda associados ao EI.

Nesses dois anos, as rotas de acesso ao território do EI na Síria e Iraque foram quase todas fechadas, o que levou o grupo a mudar de estratégia. Ele agora incentiva seus seguidores a realizar ataques menos sofisticados, mas de forte impacto, em seus países de origem no Ocidente, em vez de fazer uma viagem arriscada ao exterior.

Até agora, essa estratégia não teve o grande impacto previsto pelo EI. Contrariamente às previsões do grupo, os partidos de extrema direita sofreram um declínio surpreendente. A Frente Nacional, na França, perdeu as eleições este ano, ao passo de que o partido populista de direita britânico UKIP basicamente desapareceu do cenário político britânico. Mas embora o EI até agora não tenha conseguido dividir o eleitorado da Europa, tem provocado tensões nos lados mais extremos do espectro político.

Na Alemanha, indivíduos de direita foram acusados de incendiar centenas de abrigos para imigrantes em busca de refúgio, desde 2015. As tensões têm preocupado as autoridades alemãs, que alertaram, no ano passado, que o sentimento contra os refugiados pode se intensificar. 

Embora não se saiba ainda se o ataque em Londres foi provocado por ideologia antimuçulmana, as autoridades querem evitar possíveis tensões similares. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É JORNALISTA

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