Ataque a navio expõe dilema sul-coreano

Seul pode estar esperando a prova definitiva para culpar Pyongyang pelo naufrágio e pressionar por sanções multilaterais contra o governo da Coreia do Norte

CHOE SANG-HUN, O Estado de S.Paulo

02 Maio 2010 | 00h00

Domingo, o ministro da Defesa da Coreia do Sul disse que um torpedo foi a causa mais provável do naufrágio de um navio de guerra de seu país, que matou no mínimo 40 marinheiros no mês passado. A declaração leva a crer que o país pode responsabilizar a Coreia do Norte pelo incidente, e torna mais premente a questão de como os sul-coreanos devem reagir.O ministro, no entanto, não mencionou a Coreia do Norte, mas continuou a adotar a cautela que reflete a falta de opções à mão dos líderes sul-coreanos, caso eles cheguem à conclusão de que os norte-coreanos são os responsáveis pelo que seria um dos mais graves ataques desde a trégua que selou o fim da Guerra da Coreia.

Uma retaliação militar pode provocar uma resposta de um país com capacidade para atacar Seul e de um líder astuto que já demonstrou ser violento e imprevisível. Para a ala mais radical sul-coreana, se a resposta for menos contundente, o líder norte-coreano Kim Jong-il concluirá que pode atacar de novo sem arcar com nenhuma consequência.

O anúncio feito pelo ministro da Defesa Kim Tae-yung se enquadra num padrão que, segundo alguns analistas, indica que o governo está cuidadosamente reunindo argumentos para uma resposta limitada - distribuindo as informações lentamente de modo a acalmar os ânimos antes de, finalmente, apontar o culpado.

As declarações do ministro foram feitas dois dias depois de o presidente da Coreia do Sul, Lee Myung-bak, reunir-se com dois ex-presidentes, o que era conhecido na Coreia Confuciana como tentativa de consultar os mais velhos para chegar a um consenso sobre como proceder diante de um fato importante.

Os dois ex-presidentes, Chun Doo-hwan e Kim Young-sam, mais uma vez se posicionaram de maneira radical no caso do vizinho do Norte, falando com emoção sobre ataques passados lançados por Pyongyang, - como um bombardeio em 1983 que matou vários membros do gabinete de governo sul-coreano.

Os dois homens disseram não ter dúvidas que a Coreia do Norte estava por trás do naufrágio do navio e insistiram para Lee agir "de modo decidido" com relação ao vizinho. Mas, o que foi significativo, nenhum deles mencionou a possibilidade de um ataque militar, mesmo que limitado. Em vez disso, recomendaram uma dura punição econômica, incluindo a possibilidade de um desmantelamento da política de reconciliação entre o Norte e o Sul, que abriu os braços para o Norte e lhe forneceu ajuda e oportunidades de negócio.

A reunião poderá fornecer uma cobertura política para Lee frente a seus colegas conservadores, uma vez que Chun Doo-hwan, ex-ditador militar, continua sendo uma das mais destacadas figuras anticomunistas do país.

Durante seu brutal governo, aqueles que defendiam uma melhor relação com a Coreia do Norte eram presos e às vezes torturados, como era o caso também dos que escreviam ou liam livros que não viam a Coreia do Norte com olhar muito crítico.

Até agora, poucos sul-coreanos exigiram uma retaliação militar se ficar claro que a Coreia do Norte foi a responsável pelo incidente. Mesmo quando governada por seus mais virulentos líderes anticomunistas, a Coreia do Sul reagiu a ataques anteriores, incluindo a derrubada de um avião em 1987, com ira, mas sem uma ação vigorosa.

Pelo menos em um desses casos - o bombardeio que matou membros do gabinete de governo - um ataque em retaliação foi planejado, mas jamais colocado em prática.

Quando o país passou a ter um governo liberal, a reação dos seus líderes foi trabalhar arduamente para trazer a Coreia do Norte para a mesa de negociações e discutir o seu programa nuclear.

Programa nuclear. Essas respostas relativamente amenas foram dadas antes de a Coreia do Norte seguir adiante com esse programa nuclear, produzindo, segundo analistas da área de inteligência, matéria-prima suficiente para construir no mínimo oito armas nucleares.

Embora não esteja claro que a Coreia do Norte tem capacidade para produzir uma bomba atômica viável, ela ameaçou usar o que chamou de sua "arma de dissuasão nuclear" se for atacada.

Pyongyang negou ter afundado o navio sul-coreano. E qualquer reação mais dura do Sul agora também poderia assustar os investidores e prejudicar a economia, que vem se recuperando lentamente da crise financeira global.

Diante de tudo que está em jogo, os analistas especulam há semanas sobre como Lee, que assumiu o governo prometendo uma posição mais severa contra o Norte, responderá ao naufrágio do navio.

Alguns acham que, mesmo que esteja convencido de que a Coreia do Norte foi responsável pelo incidente, ele preferirá esconder a prova e não colocar seu país em risco. A Coreia do Norte, embora empobrecida, possui um arsenal de armas convencionais, incluindo mísseis, foguetes e artilharia que pode devastar a Coreia do Sul.

Outros têm afirmado que Lee estaria planejando exatamente o oposto - apelando a inspetores internacionais para um exame do navio de modo a conseguir apoio para uma resposta multilateral vigorosa, caso fique comprovado que a Coreia do Norte é de fato a responsável.

Segundo eles, isso pode ajudar o presidente a reforçar seus argumentos de que nem os Estados Unidos, nem a China, devem oferecer incentivos para a Coreia do Norte para que o país retome as conversações, há muito tempo paralisadas, sobre seu programa nuclear, especialmente se não produzirem uma real mudança da situação.

Sanções mais rígidas. Se a responsabilidade norte-coreana for determinada, isso também pode reforçar o argumento em favor de sanções econômicas mais rigorosas.

Medidas de retaliação contra Pyongyang não vão surtir efeito a menos que a China e outros países além dos Estados Unidos também adotem essa mesma posição. A China tem hesitado em pressionar mais duramente a Coreia do Norte, temendo um colapso da liderança de Pyongyang, o que provocaria um grande afluxo de refugiados atravessando a fronteira.

Contudo, mesmo Lee pode relutar em ir tão longe. Há meses ele vem insistindo em uma reunião de cúpula com Kim Jong-il e pode não querer renunciar à chance de mostrar que a sua estratégia mais dura, depois de anos do que chamou de afago liberal, pode dar resultados.

No final, caso fique determinado que Pyongyang afundou o navio, o maior perigo poderá ser para a política de reconciliação, legado deixado pelos dois últimos presidentes liberais,.Uma política que já vacilava, com a Coreia do Sul cortando todo o aprovisionamento de fertilizantes e alimentos depois que a Coreia do Norte abandonou as conversações sobre a questão nuclear, e fechando um resort turístico no Norte que era operado em conjunto, depois que o Exército norte-coreano matou um turista sul-coreano.

Novos cortes podem deixar a Coreia do Norte, que continua lutando com a falta de alimentos e a inflação galopante, cada vez mais desesperada. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE DO "THE NEW YORK TIMES" EM SEUL

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