AP Photo/Hassan Ammar
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Ataque à Síria é incapaz de garantir uma vitória a Trump

Consolidação do poder por Bashar Assad é inevitável e o risco de uma escalada entre potências é real

Ishaan Tharoor, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

14 Abril 2018 | 05h00

Para Trump, que adora “vencer”, não há como vencer na Síria. Mas ele ainda tem a capacidade de piorar as coisas. Trump pode tuitar furiosamente sobre o “animal” que é o presidente sírio Bashar Assad. Pode apontar dedos, ainda que hipocritamente, ao seu antecessor por não ter feito o suficiente para confrontar o regime de Assad.

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Ele pode até mesmo declarar missão cumprida na luta contra o Estado Islâmico. Mas ele não tem nem um plano nem o apetite para parar a consolidação brutal do poder de Assad e a destruição constante dos bolsões remanescentes da rebelião contra o regime.

Para ser justo, a complexidade do que se desenvolve na Síria tem dado nós em especialistas em política externa bem mais experientes. Muitos membros do establishment de Washington passaram anos clamando por uma estratégia mais astuciosa tanto para conter Assad quanto para ajudar a acabar com o danoso conflito sírio.

Eles criticaram o governo Obama por não levar adiante ataques aéreos contra o regime, reforçando suficientemente os rebeldes moderados ou aderindo às suas próprias “linhas vermelhas” no uso de armas ilícitas.

Mas, dado o profundo envolvimento da Rússia e do Irã ao lado de Assad, nunca foi dado como certo que uma intervenção militar limitada dos EUA seria suficiente para desalojar Assad de Damasco. A alternativa – um esforço de guerra completo – era compreensivelmente intragável.

Exatamente um ano atrás, Trump ordenou um ataque contra um aeródromo sírio depois de outro ataque químico do regime. O ataque nada fez para alterar a trajetória da guerra, e não há razão para que um outro ataque seja mais eficaz.

Mas o risco de tal escalada é real. Uma base aérea síria que abrigava funcionários iranianos foi atingida na segunda-feira – aparentemente por Israel – destacando a rapidez com que medidas de retaliação poderiam se transformar em um conflito com o Irã (claro, essa guerra teria muitos líderes de torcida em Washington, especialmente se realizada secretamente em grande medida pelos israelenses).

O ataque americano a equipamentos militares sírios também apresenta a possibilidade de um conflito com a Rússia, que mantém uma significativa pegada na Síria e foi recentemente notícia por bloquear os sinais para drones americanos operando em seu espaço aéreo. 

Esta semana, assessores do presidente Vladimir Putin colocaram-se na defensiva, considerando a nova onda de sanções e a promessa de ação de Trump na Síria como os mais recentes sinais de que a Rússia enfrenta uma nova era de “solidão geopolítica” e antagonismo do Ocidente. Autoridades alertaram para uma nova “crise dos mísseis cubanos” na região – e a perspectiva de uma conflagração muito mais perigosa.

“Trump tem que compreender que estamos falando sobre a possibilidade de escalada nuclear se houver um conflito entre as forças armadas dos EUA e da Rússia”, disse Igor Korotchenko, acadêmico militar russo e membro do conselho consultivo do Ministério da Defesa, ao meu colega Anton Troianovski. “Tudo pode acontecer muito rapidamente e a situação pode escapar do controle dos políticos.”

Esse medo ajudou a garantir a posição de Assad. James Dobbins, ex-diplomata do governo Obama, argumentou que os Estados Unidos deveriam condicionar sua retirada a um conjunto de considerações práticas: deveria pressionar seus aliados sírios curdos a negociar algum tipo de acordo com Damasco e obter um acordo de Assad que inclua a retirada do país de milícias pró-iranianas.

A perspectiva de que isso aconteça pode não ser tão absurda quanto parece – Assad, caso sinta-se seguro no abrigo do poder, provavelmente não desejará provocar novos ataques israelenses nem parecer excessivamente dependente de combatentes estrangeiros. “O melhor que se pode esperar neste estágio tardio é que a Síria do pós-guerra não seja pior do que a Síria de antes da guerra”, escreveu Dobbins.


 

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