Jason Andrew/The New York Times
Jason Andrew/The New York Times

Ataque ao Capitólio coloca extrema direita global 'apocalíptica' sob os holofotes

Extremistas dão sinais de que ações e ideias estão atravessando fronteiras, mas especialistas ainda não veem laços mais profundos entre os grupos

Katrin Bennhold e Michael Schwirtz, The New York Times

26 de janeiro de 2021 | 10h00

BERLIM — Quando atacaram o Capitólio em Washington no início deste mês, pessoas ligadas à extrema direita vibraram do outro lado do Atlântico. Jürgen Elsässer, editor da mais famosa revista de extrema direita alemã, estava assistindo tudo ao vivo de seu sofá.

"Era como se fosse um jogo de futebol", disse. Quatro meses antes, Elsässer participou de uma marcha em Berlim, quando um grupo de manifestantes de extrema direita tentou — e fracassou em — forçar a entrada no prédio que abriga o Parlamento alemão. O paralelo não se perdeu para ele.

"O fato de eles terem invadido elevou as esperanças de que há um plano", declarou. "Ficou claro que isso era algo maior."

E é. Defensores de movimentos de extrema direita pelo mundo compartilham mais do que apenas uma causa em comum. Extremistas alemães viajaram aos EUA para competições de tiro. Neonazistas americanos visitaram companheiros na Europa. Militantes de vários países se unem em campos de treinamento na Rússia e na Ucrânia até a África do Sul.

Luz do dia

Por anos, a extrema direita trocou ideias e inspiração nas margens da sociedade e nos cantos mais obscuros da internet. Agora os eventos do dia 6 de janeiro no Capitólio deixaram claro seu potencial para a violência.

Em conversas nas redes sociais usadas pelos extremistas, muitos consideraram que a invasão ao Capitólio foi uma bobeira amadora. 

Alguns ecoaram mentiras dos canais ligados à conspiração QAnon nos EUA, alegando que a confusão foi montada por pessoas da esquerda para justificar uma repressão aos apoiadores de Donald Trump

Mas outros viram como um momento de aprendizado — sobre como ir adiante em seu objetivo de derrubar governos democráticos de formas mais concretas.

É uma ameaça que a comunidade de inteligência, em especial na Alemanha, leva a sério. Tanto que, logo depois da violência nos EUA, as autoridades locais aumentaram  a segurança ao redor do Parlamento, que manifestantes da extrema direita — levando algumas das mesmas bandeiras e símbolos vistos em Washington — tentaram invadir no dia 29 de agosto.

O presidente Joe Biden ordenou que fosse feita uma análise profunda da ameaça do extremismo interno nos EUA.

Por enquanto, não foram encontrados planos para ataques na Alemanha, segundo agentes de segurança. Mas alguns estão preocupados que os efeitos do dia 6 de janeiro tenham o potencial de radicalizar extremistas de direita na Europa.

"Pessoas de extrema direita, coronacéticos e neonazistas estão se sentindo inquietos", declarou Stephan Kramer, chefe da inteligência interna no estado da Turíngia. "Há uma mistura perigosa de louvor ao quão longe os invasores foram e a frustração de não terem conseguido uma guerra civil ou um golpe", afirmou Kramer.

Encontros pessoais e online

É difícil dizer exatamente o quão profundos e duráveis são os laços entre a extrema direita nos EUA e seus pares na Europa. Mas os governos estão cada vez mais preocupados com uma rede de ligações internacionais difusas, e temem que essas redes, já encorajadas durante os anos Trump, tenham se tornado mais determinadas depois de 6 de janeiro.

Um relatório recente do governo alemão descreve “um novo movimento de extrema direita transnacional, sem líderes, com pensamento apocalíptico e violento” que surgiu na última década.

Os extremistas são movidos pelas mesmas teorias da conspiração e narrativas de “genocídio branco” e “grande substituição” de populações europeias por imigrantes, diz o relatório. Eles ocupam os mesmos espaços on-line e também se encontram em festivais de música de extrema direita, eventos de artes marciais e protestos.

“As cenas neonazistas são bem conectadas”, disse Kramer. “Não estamos falando de curtidas no Facebook. Estamos falando de neonazistas viajando, se encontrando e celebrando juntos.”

Os campos de treinamento provocaram ansiedade na inteligência e entre agentes de segurança, que temem que tais atividades pavimentem o caminho para um tipo mais organizado e deliberado de violência.

Alianças

Dois nacionalistas brancos que estiveram em um acampamento paramilitar mantido pelo extremista Movimento Imperial Russo, nos arredores de São Petersburgo, foram acusados por promotores suecos de planejar ataques a bomba contra imigrantes em busca de asilo. 

No ano passado, o Departamento de Estado designou o Movimento Imperial Russo como uma organização terrorista, o primeiro grupo nacionalista branco a receber tal qualificação.

Em 2019, o diretor do FBI, Christopher Wray, alertou que os supremacistas americanos estavam viajando para o exterior para treinar com grupos nacionalistas estrangeiros. 

Um relatório daquele ano do Centro Soufan, um centro de estudos independente, descobriu que 17 mil estrangeiros, muitos deles nacionalistas brancos, viajaram à Ucrânia para lutar nos dois lados do conflito no Leste do país. Muitos eram russos, mas havia dezenas de americanos. Em algumas ocasiões, um inspira o outro a matar.

Os manifestos cheios de ódio de Anders Breivik, que matou 77 pessoas na Noruega em 2011, e de Dylann Roof, um supremacista branco americano que matou nove pessoas em uma igreja na Carolina do Sul quatro anos antes, influenciaram Brenton Harrison Tarrant, que em 2019 transmitiu ao vivo o assassinato de mais de 50 muçulmanos em Christchurch, na Nova Zelândia.

O manifesto de Tarrant, intitulado “A grande substituição”, por sua vez inspirou Patrick Crusius, que matou 22 pessoas em El Paso, assim como um atirador norueguês que foi dominado quando tentava atirar em pessoas em uma mesquita de Oslo.

Muitos extremistas imediatamente interpretaram os eventos de 6 de janeiro como uma vitória simbólica e uma derrota estratégica com cujos errados deveriam aprender.

Elsässer, editor da revista Compact, apontada pela inteligência interna alemã como extremista, descreveu o ataque ao Capitólio como uma “tentativa honrada” que fracassou por conta do planejamento inadequado.

"O ataque do Parlamento por manifestantes é o começo de uma revolução que pode funcionar", escreveu um dia depois do ataque. "Mas uma revolução só pode ter sucesso se for organizada. Na hora mais tensa, quando você quer derrubar o regime, precisa de um plano e uma equipe."

Movimento global?

Entre os que se sentem encorajados pela mobilização vista desde o dia 6 de janeiro estava Martin Sellner, líder da seção austríaca do movimento de extrema direita europeu Geração Identidade, que defende a não violência mas ajudou a popularizar ideias como a da "grande substituição".

Depois do ataque ao Capitólio, Sellner escreveu que "a raiva, a pressão e o ânimo revolucionário entre os patriotas é em princípio potencialmente positivo. Apesar da falta de foco no ataque ao Capitólio, deixando para trás nada além de alguns memes e vídeos virais, poderia ser criada uma abordagem planejada a partir desse sentimento rumo a uma resistência mais efetiva".

Sellner, que disse em entrevista que Trump poderia ser ainda mais eficiente na oposição, personifica o alcance de um movimento cada vez mais global, com seus laços com ativistas na Europa e nos Estados Unidos.

Ele é casado com Brittany Pettibone, uma americana que é estrela do YouTube com seus vídeos da "alt-right", onde aparece entrevistando extremistas conhecidos no continente, como o nacionalista britânico Tommy Robinson.

Vários integrantes dos Proud Boys estavam entre os que atacaram o Capitólio. No dia 19 de outubro, o grupo compartilhou em seus grupos no Telegram ter visto um “grande salto no apoio vindo da Alemanha nos últimos meses”.

“Uma grande parte de nossos vídeos está sendo distribuída pela Alemanha”, diz uma mensagem, que também foi traduzida para o alemão. “Agradecemos o apoio e estamos rezando por nosso país. Estamos com os nacionalistas alemães que não querem imigrantes destruindo seu país.”

Enquanto os EUA exportam as teorias da conspiração QAnon pelo Atlântico, teorias similares vindas da Europa e desinformação estão chegando a terras americanas. 

Dias depois da eleição de novembro, seguidores do QAnon na Alemanha espalhavam uma ideia falsa de que provaram que a votação foi manipulada por um servidor operado pela CIA em Frankfurt, apesar de milhões de votos terem sido enviados em papel e por correio.

A desinformação, que o pesquisador Josef Holnburger rastreou ter sido originada em uma conta em alemão, foi amplificada por pelo menos uma seção da Alternativa para a Alemanha, a AfD. Também foi destacada pelo deputado americano Louie Gohmert e por Rudy Giuliani, aliado e advogado de Trump e ex-prefeito de Nova York.

Daí, a publicação viralizou nos EUA — algo até então inédito para os conspiracionistas QAnon alemães, aponta Holnburger.

Os laços transnacionais são mais inspiradores do que focados em organização, afirma Miro Dittrich, especialista em redes extremistas de direita. “Não se trata de criar um plano concreto, mas sim criar um potencial violento”, declarou.

Especialistas se mostram céticos sobre o potencial de criação de relações mais duradouras entre os grupos de extrema direita. Quase todas tentativas nesse sentido desde a Segunda Guerra fracassaram, afirmou Anton Shekhovtsov, especialista da Universidade de Viena.

Há uma divisão entre os seguidores desses grupus a respeito do valor ou a viabilidade dessas alianças. Para muitos, a ideia de um movimento nacionalista internacional é um oxímoro.

“Há um clima comum e uma troca de ideias, memes e imagens”, declarou Sellner, o ativista de extrema direita austríaco. “Mas os campos políticos nos EUA e na Europa são muito diferentes.”

Rinaldo Nazzaro, fundador do grupo supremacista branco internacional A Base, agora vive em autoexílio em São Petersburgo, na Rússia, mas diz não ter interesse em estabelecer laços com grupos nacionalistas russos.

“Nacionalistas nos EUA precisam fazer a parte mais pesada (do trabalho)”, declarou. “O apoio vindo de fora pode ser apenas suplementar, no máximo.”

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