Evelyn Hockstein for The Washington Post
Evelyn Hockstein for The Washington Post

Ataque ao Capitólio pode alimentar recrutamento extremista por anos, alertam especialistas

Confusão ideológica de extremistas de direita e grupos de ódio floresceu sob presidente Trump e reivindicou novo governo após ataque ao Capitólio. Agora eles estão debatendo seus próximos movimentos.

Neil MacFarquhar e Jack Healy, The New York Times

18 de janeiro de 2021 | 10h00

Derrubando o governo. Iniciando uma segunda Guerra Civil. Banindo minorias raciais, imigrantes e judeus. Ou simplesmente semeando o caos nas ruas.

As facções irregulares de grupos de extrema direita e nacionalistas brancos encorajados pelo presidente Donald Trump há muito alimentam uma lista concomitante de ódios e objetivos. Mas agora eles foram galvanizados pelas falsas alegações do presidente em fim de mandato de que a eleição foi roubada dele - e pelo violento ataque ao Capitólio, que centenas deles lideraram em seu nome.

"Os políticos que mentiram, traíram e deixaram o povo americano de lado por décadas foram forçados a se encolher de medo e a fugir como ratos", comentou um grupo no Twitter, conhecido por divulgar as piores alegorias antissemitas, um dia após o ataque.

A insurreição no Capitólio serviu como um golpe de propaganda para a extrema direita, e aqueles que rastreiam grupos de ódio dizem que o ataque provavelmente se juntará a um léxico extremista com Waco, Ruby Ridge e a ocupação Bundy de uma reserva de vida selvagem do Oregon para alimentar o recrutamento e a violência nos anos que estão por vir.

Mesmo com dezenas de amotinadores sendo presos, salas de bate-papo e aplicativos de mensagens onde aqueles de extrema direita se reúnem estão repletos de celebrações e planos. Uma confusão ideológica de grupos de ódio e agitadores de extrema direita - os Proud Boys, Oath Keepers, o movimento Boogaloo e neonazistas entre eles - estão agora discutindo como expandir suas ações e se devem tomar as ruas novamente neste fim de semana e na próxima semana para se opor à posse de Joe Biden.

Alguns, enfurecidos por não terem conseguido anular a eleição presidencial, têm publicado manuais sobre como travar guerras e construir dispositivos explosivos.

As autoridades de segurança pública responderam reforçando a segurança nos aeroportos e criando uma "zona verde" militarizada no centro de Washington. O FBI e o Departamento de Segurança Interna emitiram um alerta urgente de que os invasores podem usar como alvo prédios federais e funcionários públicos nos próximos dias, e pelo menos 10 estados ativaram as tropas da Guarda Nacional em suas capitais. Alguns estados cancelaram as atividades legislativas na próxima semana por causa da possibilidade de violência.

Eliminar grupos extremistas das principais plataformas de mídia social como Facebook e Twitter pode ter conseguido interromper sua organização, dizem os especialistas, mas esses esforços os empurraram para formas de comunicação mais difíceis de rastrear, incluindo aplicativos criptografados que dificultam o rastreamento de atividades extremistas.

"Destruir as plataformas pode levar a mais violência", disse Mike Morris, o fundador do Three Percent United Patriots, com sede no Colorado, uma das dezenas de grupos paramilitares chamados "patriotas". Morris disse que não apoia a violência, mas alertou que outros grupos podem encontrar mais liberdade para conspirar em plataformas criptografadas. Morris afirmou que seu grupo perdeu a conta no Facebook neste verão e recentemente abriu uma no MeWe, uma das várias plataformas menores que atraem cidadãos da extrema direita.

Desde a semana passada, dezenas de novos canais em aplicativos de envio seguro de mensagens surgiram dedicados ao QAnon, a teoria de conspiração da extrema direita que diz que Trump está lutando contra uma conspiração de satanistas e pedófilos. Muitas milícias têm encontrado milhares de novos seguidores em cantos mais sombrios da internet, como um canal do Telegram dirigido pelos Proud Boys, um violento grupo de extrema direita cujo número de seguidores mais do que dobrou e foi de 16.000 para mais de 34.000.

"As pessoas viram o que podemos fazer. Elas sabem o que está acontecendo. Elas querem se juntar a nós", vangloriava-se uma mensagem em um canal do Proud Boys no Telegram no início desta semana.

Grupos de ódio têm sido a base da vida americana, não importa quem esteja na Casa Branca. Eles tiveram inimigos naturais quando os democratas ocuparam a presidência. Sob Trump, eles tiveram um aliado.

O presidente ecoou a demonização desses grupos a respeito dos imigrantes e temores de apreensão de armas e empurrou as ofensas de brancos para a corrente em vigor americana.

Grupos de extrema direita se animaram depois que Trump falou sobre "gente muito boa de ambos os lados" no comício "Unite the Right" de 2017 em Charlottesville, Virgínia, onde um supremacista branco atropelou e matou um manifestante contrário pacífico com seu carro. Eles viram um sinal de apoio quando Trump, durante um debate presidencial, disse aos Proud Boys para "recuarem e aguardarem".

Repetidamente no ano passado, eles aproveitaram as aberturas criadas pela pandemia e por conflitos civis.

Grupos paramilitares que ecoam os apelos de Trump por "lei e ordem" apareceram armados e aparelhados com equipamentos táticos em manifestações do movimento Black Lives Matter em lugares como Louisville, Kentucky e Minneapolis. Manifestantes de direita lutaram nas ruas de Portland, Oregon, com ativistas de esquerda. Quando um jovem de 17 anos foi acusado de atirar e matar duas pessoas em um protesto em Kenosha, Wisconsin, grupos armados e alguns conservadores se juntaram para apoiá-lo.

Incitados pelos apelos de Trump para "libertar" os estados democratas sob lockdown por conta da pandemia do novo coronavírus, grupos de extrema direita e extremistas armados com fuzis forjaram uma causa comum com alguns republicanos tradicionais incomodados com os limites do governo aos negócios e à vida pública. Em Michigan, homens armados invadiram o palácio do governo em Lansing e promotores acusaram 14 homens, incluindo alguns ligados a um grupo armado chamado Wolverine Watchmen, de conspirar para sequestrar a governadora Gretchen Whitmer em resposta às medidas de bloqueio total impostas por ela.

Tudo culminou no comício "Stop the Steal" (Parem o roubo) no Capitólio, no dia 6 de janeiro. Enquanto milhares de apoiadores de Trump marcharam até o National Mall, entre eles estavam adeptos de grupos de supremacia branca, integrantes da milícia usando insígnias e Proud Boys de extrema direita.

"A sorte pode ser necessária na Segunda Guerra Civil", Larry Rendell Brock Jr., um homem do Texas acusado de conexão com o ataque, escreveu no Facebook dias antes dos eventos em Washington, de acordo com promotores federais. Brock pretendia fazer reféns, disseram os promotores, e marcou a publicação com os nomes de dois grupos antigovernamentais.

Pelo menos dois ativistas conhecidos envolvidos no comício de 2017 em Charlottesville também estiveram nos distúrbios no Capitólio, de acordo com Amy Spitalnick, diretora executiva do Integrity First for America, um grupo sem fins lucrativos que está patrocinando um processo sobre a violência em Charlottesville.

Lindsay Schubiner, diretora de programação do Western States Center, que foca em combater o nacionalismo branco, disse que tem sido assustador observar o surgimento de grupos de extrema direita nos últimos anos que representam perigos para pessoas das comunidades negra e LGBTQI+. Sem uma grande mudança, ela espera que os grupos extremistas continuem sendo um risco para a segurança pública e para a democracia do país por muitos anos.

"Isso não é algo que possa ser revertido - pelo menos não de forma rápida ou fácil", disse Lindsay.

O ataque ao Capitólio provavelmente se tornaria "um fator significativo de violência para um conjunto diversificado de extremistas violentos domésticos", disse uma série de agências governamentais em um boletim de inteligência conjunto emitido em 13 de janeiro. O ataque ao prédio, disseram vários analistas, poderia alimentar um retrocesso perigoso contra o governo de Biden e sua agenda sobre controle de armas, justiça racial, terras públicas e outras questões por extremistas que não têm medo de usar a violência para conseguir o que querem.

Mas a reação ao motim no Capitol também pode diminuí-los. Depois de Charlottesville, os líderes da direita alternativa se fragmentaram em meio a uma torrente de condenações, brigas internas e ações legais. Duas dúzias de líderes e grupos nacionalistas brancos estão sendo processados por seu papel naquela manifestação. Não mais no centro das atenções, Richard Spencer, um de seus principais organizadores, disse que foi prejudicado por taxas legais, perdeu megafones nas redes sociais e agora se sente traído por seus ex-aliados dentro do movimento da direita alternativa.

As consequências imediatas do ataque ao Capitólio levaram a uma discussão entre os extremistas sobre a possibilidade de realizar outra rodada de manifestações violentas ou ficar quieto e deixar passar as prisões, investigações e multidões de policiais e tropas da Guarda Nacional despachadas para proteger as sedes e o Capitólio antes da inauguração .

Enrique Tarrio, líder dos Proud Boys, que foi preso em Washington vários dias antes do ataque ao Capitólio sob a acusação de transportar munição ilegal e queimar um banner do movimento Black Lives Matter, agora chama o ataque ao Capitol de erro. Mas ele disse que o movimento de extrema direita galvanizado por Trump duraria mais que sua presidência.

"Sinto que o movimento superou a pessoa", disse Tarrio. "Ele criou esse movimento que eu acho que ninguém pode parar. Eles podem tentar silenciar. Eles podem tentar acabar com as plataformas. Isso só vai aumentar sua intensidade." / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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