Vahid Salemi/AP
Vahid Salemi/AP

Ataque cibernético desativa postos de gasolina e cria longas filas em todo o Irã 

País tem sido alvo frequente de ataques cibernéticos nos últimos anos, incluindo ações patrocinadas por governos contra seu programa de energia atômica e outras infraestruturas críticas

The Washington Post, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2021 | 17h17

ISTAMBUL - As vendas de combustível foram interrompidas em postos de gasolina em todo o Irã nesta terça-feira, 26, depois que autoridades disseram que um ataque cibernético paralisou um sistema que permite aos consumidores comprar combustível subsidiado usando cartões emitidos pelo governo, disse a agência de notícias estatal iraniana Irna.

“A interrupção no sistema de combustível inteligente fez com que os cartões não fossem identificados”, informou a Irna. "A causa foi um ataque cibernético, que os especialistas técnicos estão resolvendo."

Imagens de longas filas se formando em postos de gasolina foram postadas em sites de notícias iranianos, que fizeram a cobertura em tempo real da crise. As autoridades disseram que estavam restaurando a rede de distribuição desativando o sistema de subsídio, estação por estação, e informaram que o combustível permanecia disponível na bomba “gratuita” - com o dobro do valor da taxa não subsidiada.

“Já estive em dez postos de gasolina, eles não conseguem vender o combustível, mesmo com o preço de mercado livre”, disse um cliente em um vídeo postado pela Irna. Um frentista no vídeo disse que o sistema de cartão inteligente estava fora do ar desde às 11h da manhã. “Só podemos vender combustível por meio desse sistema. Na verdade, é o sistema que afrouxa o bocal para que os carros possam receber combustível.”

O Irã tem sido alvo frequente de ataques cibernéticos nos últimos anos, incluindo ações patrocinadas por governos contra seu programa de energia atômica e outras infraestruturas críticas, com algumas delas atribuídas a grupos obscuros, aparentemente com o objetivo de expor abusos do governo. Não houve reivindicação imediata de responsabilidade pelo ataque de terça-feira.

Em agosto, um grupo de hackers que se autodenomina The Justice of Ali divulgou imagens de câmeras de segurança mostrando guardas espancando e chutando prisioneiros na prisão de Evin, um famoso centro de detenção que mantém detentos políticos e estrangeiros. A divulgação da filmagem gerou um raro pedido de desculpas por parte das autoridades prisionais iranianas.

No ano passado, o tráfego marítimo em um dos principais portos do Irã foi interrompido abruptamente depois que computadores que regulavam a movimentação de navios, caminhões e outras mercadorias foram desativados. Oficiais de governos estrangeiros, incluindo dos Estados Unidos, disseram que o ataque hack - como outros que visam o programa nuclear do Irã - se originou em Israel, o principal adversário regional do Irã.

Da mesma forma, os Estados Unidos, Israel e outros governos ocidentais acusaram o Irã ou grupos vinculados a Teerã de hackear sistemas de computadores públicos e privados em seus países.

A Check Point Software Technologies, uma empresa de segurança cibernética israelense-americana, atribuiu um ataque, em julho, ao sistema de trens do Irã a um grupo chamado Indra, que se autoidentificou como entidade de oposição iraniana. Os hackers interromperam os serviços de trem, derrubaram o site do Ministério dos Transportes do Irã e se infiltraram em painéis eletrônicos em estações de trem, disse a empresa.

Painéis eletrônicos também foram hackeados no ataque a postos de combustível nesta terça-feira, incluindo na cidade de Isfahan, onde placas, incluindo em rodovias movimentadas, exibiam mensagens que diziam: "Khamenei, onde está nossa gasolina?", de acordo com a Mehr News Agency e a BBC, referindo-se ao líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei.

O caos nas estações de combustível gerou especulações de que o ataque tinha como objetivo coincidir com o aniversário de dois anos dos protestos nacionais contra o governo, após o aumento abrupto dos preços dos combustíveis em novembro de 2019.

A agitação resultante, refletindo a raiva com a piora da economia e com as sanções dos EUA, levou à morte de mais de 300 pessoas, em meio a uma repressão implacável das forças de segurança, de acordo com a Anistia Internacional.

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