Ataque de antraz provoca confusão no Congresso dos EUA

A Câmara de Representantes dos Estados Unidos fechou as portas hoje à tarde, por medida de precaução, diante da possibilidade de o pó contendo um tipo especialmente potente da bactéria de antraz enviado por carta ao líder da maioria no Senado, Tom Daschle, ter se espalhado pelos ductos de ventilação e túneis que unem os vários prédios do Legislativo norte-americano. O prédio do Senado, onde está o gabinete de Daschle, já havia sido parcialmente fechado um dia antes. Daschle informou que os exames feitos na terça-feira com mais de 1.400 pessoas no Congresso confirmaram que pelo menos 33, quase todas de seu gabinete, foram expostos ao antraz e estão sendo tratadas com antibióticos. Um dos contaminados é o senador democrata Russel Feingold. A contaminação foi confirmada pelo exame de amostra de material retirada das narinas dos funcionários. Daschle disse que três outros prédios do Senado seriam esvaziados até o fim do dia para inspeção. Mas os senadores decidiram permanecer em sessão até amanhã, quando reavaliarão a situação. "Estou absolutamente determinado a garantir que o Senado continue a fazer seu trabalho", disse Daschle. "Não há nenhum risco aqui no Capitólio." Paralelamente, o FBI confirmou a descoberta de traços de antraz no escritório de Manhattan do governador do Estado de Nova York, George Pataki, que passou a tomar a dose preventiva de três dias de antibióticos. Suspensão Se o objetivo mais imediato dos responsáveis pelo envio do antraz ao Senado era causar confusão no Congresso e aumentar o sentimento de vulnerabilidade dos norte-americanos, a operação foi bem sucedida. O presidente da Câmara, Dennis Hastert, anunciou a suspensão dos trabalhos até terça-feira, durante uma confusa entrevista na qual falou sobre a descoberta de uma caixa suspeita num de seus gabinetes, imediatamente interditado. Segundo ele, máquinas usadas para inspecionar a correspondência enviada ao Senado revelaram a presença do bacilo em algumas caixas e cartas, indicando que a bactéria pode ter se espalhado. "Estou pedindo a todos os funcionários para irem para casa após o expediente, para que os prédios possam ser examinados", disse. Mas Hastert não soube explicar por que, diante do óbvio risco de contaminação, que justificava sua decisão de suspender os trabalhos da Câmara no fim do dia, ele não interrompia os trabalhos imediatamente. Naquele momento, o presidente do Federal Reserve, o banco central norte-americano, Alan Greenspan, figura-chave na estrutura do governo federal, fazia um depoimento a uma comissão mista do Congresso. A confusão aumentou no início da tarde. O senador democrata John Kerry, de Massachusetts, chamou de "errada" a informação dada por Hastert sobre a possibilidade de a bactéria ter se espalhado pelo sistema de ventilação do Congresso. Segundo o senador, a contaminação estava restrita a uma sala do serviço de correio do Senado e ao gabinete de Daschle. Segundo especialistas, os primeiros testes no sistema de ventilação, a partir dos gabinetes de Daschle e da sala do correio, deram negativo. Por precaução, parte do sistema foi desativado. Embora apenas quatro pessoas tenham ficado doentes até agora por exposição à bactéria - esse número inclui Bob Stevens, o editor de fotografia de uma editora da Flórida, que morreu -, fontes oficiais e especialistas em bioterrorismo disseram que o alto grau de refino do pó contendo o antraz enviado ao gabinete de Daschle e sua potência como arma sugerem que os remetentes têm acesso a um tipo de germe e a um sistema de transmissão capaz de produzir um elevado número de vítimas. O antraz que contaminou o gabinete do líder do Senado "é uma variedade comum, que responde a antibióticos", disse hoje o general John Parker, chefe de um centro de pesquisas médicas do Exército, sem dar detalhes. Repercussão Na véspera, depois de se reunir com os investigadores do FBI e um epidemiologista do Exército, Daschle disse que a substância que lhe foi enviada num envelope é "uma forma muito forte, muito potente de antraz, com um grau bastante alto de concentração, que claramente foi produzida por alguém que sabe o que está fazendo". Fontes do governo citadas pelo The New York Times disseram que as finíssimas partículas do pó usado como veículo para propagar a bactéria constituem algo bem mais ameaçador do que as formas mais rudimentares encontradas nos envelopes que provocaram contaminações com antraz nos escritórios das redes de televisão NBC, ABC, em Nova York, e da American Media, em Boca Ratón, Flórida. "É a primeira vez na história que uma forma tão sofisticada de antraz foi usada como arma numa guerra ou num ataque de bioterrorismo", escreveu o Times. "A chave para compreender o perigo é o tamanho das partículas, dizem os especialistas." Segundo eles, alguém armado com antraz sob forma de pó formado por partículas de menos de cinco mícrons (um mícron é igual a um milésimo de milímetro) tem potencialmente na mão um aerossol que pode permanecer no ar e ser usado como arma para ações de bioterrorismo contra grandes contingentes de pessoas. Nos anos 60, os próprios Estados Unidos demonstraram o alcance e os possíveis efeitos de tal arma espalhando uma substância benigna relacionada ao antraz no metrô de Nova York, informou o Times. Suspeitas Até hoje, as autoridades americanas não tinham nenhuma prova concreta ligando o caso de antraz no Senado aos ataques terroristas de 11 de setembro ou a uma organização terrorista. Os serviços de correio, grandes empresas de imprensa e de outros setores adotaram medidas especiais de precaução para o processamento de correspondência. Complicando ainda mais as investigações sobre a origem e possíveis conexões entre os casos de antraz espalhados por correio na Flórida, Nova York e no Distrito de Colúmbia, a organização Planned Parenthood, que promove o planejamento familiar e luta pela manutenção do aborto legal, informou hoje que um de seus escritórios, em Stuart, Flórida, recebeu uma carta com uma substância suspeita. Segundo a organização, envelopes com pó foram enviados a nada menos de 90 clínicas de aborto em todo o país. Leia o especial

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.