Matthias Balk/dpa via AP
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Ataque de Munique não teve relação com EI

Autor tinha ainda 300 balas em sua mochila e investigadores apuram possível inspiração em ataques da extrema direita na Noruega. Atirador estava sendo tratado por depressão, tinha poucos amigos e era alvo de bullying

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2016 | 13h19

GENEBRA – O autor do atentado de Munique não tinha relações com o grupo "Estado Islâmico" (EI), ou nem com outra organização terrorista. As motivações para o ataque continuam desconhecidas. Mas as investigações apontam que um massacre ainda maior pode ter sido evitado. O atirador ainda contava com 300 balas em sua mochila e aparentava ser “obcecado” com ataques em massa, em especial o do extremista norueguês Ander Breivik, ocorridos há exatos cinco anos e que deixou 77 mortos. 

O atirador foi identificado como Ali Sonboly, que estava sendo tratado por depressão. Nascido em Munique e com 18 anos, ele tinha cidadania alemã e iraniana. Segundo a polícia, ele agiu sozinho e teria premeditado o ato. Além de Sonboly, que teria cometido suicídio, nove pessoas morreram e 27 foram feridas. 

Alvo de bullying no colégio, quieto e sendo tratado por psiquiatras, o jovem era entregador de jornal e estudava em tempo integral. Mas seu comportamento chamava a atenção dos colegas de escola. De acordo com a imprensa alemã, pessoas de sua classe o descreveram como "preguiçoso", com um ou dois amigos e que jogava sempre os jornais que precisava distribuir em lixeiras. 

Segundo as investigações iniciais, Sonboly tinha um especial interesse por ataques em massa, entre eles as mortes causadas na Noruega por Breivik. Em revista a sua casa, a polícia encontrou dezenas de reportagens sobre essas mortes e um livro: "Por que crianças Matam – Dentro das mentes de atiradores em escolas". 

Para o porta-voz da polícia, Peter Beck, “não se sabe ainda qual foi a motivação do crime”. Mas questionado sobre o impacto dos atos de Breivik, que hoje continua preso, o chefe da polícia alemã, Hubertus Andrä, admitiu que essa era “uma conexão óbvia”. Precisamos assumir que ele conhecia esse ataque”, disse Andrä. Já o ministro do Interior, Thomas de Maiziere, optou pela cautela, dizendo que ainda seria cedo para estabelecer uma relação direta entre os dois atentados. 

Uma das prioridades ainda dos investigadores alemães foi a de afastar qualquer relação entre as mortes e o fluxo de refugiados para a Alemanha, justamente temendo uma reação em cadeia de grupos de extrema-direita ou atos isolados de vingança. 

"Ele não tem nenhuma ligação com refugiados. Também não há nenhuma evidência de que ele tenha ligação com o 'Estado Islâmico", insistiu Andrä. Nos últimos meses, a extrema-direita alemã tem usado a questão dos refugiados para alertar sobre a possibilidade de um atentado no país.

CONVITE. Segundo a investigação, o ataque começou na porta de uma lanchonete McDonald's. O garoto havia hackeado um perfil no Facebook e feito um convite geral para que jovens fossem até a lanchonete. Ali, ele distribuiria lanches. “Eu os darei algo que vocês querem. Mas não muito caso”, escreveu. Quando os "convidados" chegaram, foram alvo dos tiros. O ataque ainda continuou pelo shopping center Olympia, no lado oposto da rua. 

Diante da correria, a polícia chegou a acreditar que existiam três atiradores e a cidade foi colocada em alerta máximo. Dois mil policiais foram acionados, os serviços de transporte público suspensos e a ordem para que as pessoas não saíssem de suas casas. Até as fronteiras foram fechadas.

Mas, um quilômetro de distância do local do atentado, o corpo de Sonboly foi encontrado com um tiro na cabeça. A tese é de que teria se suicidado durante a fuga. Em sua casa, a polícia encontrou material sobre ataques e pesquisas relativas a vinganças. Uma das pistas avaliadas é o interesse especial por matar jovens.  

Entre as vítimas, oito das nove tinha menos de 20 anos. Três turcos, três kosovares e um grego estavam entre os mortos. Numa troca de ofensas com uma pessoa que testemunhava o tiroteio, o autor chegou a ser acusado de "turco de merda". Mas respondeu que era alemão e explicou que havia sido alvo de bullying por sete anos. 

Visivelmente abalada, a chanceler alemã Angela Merkel tentou dar uma mensagem de confiança, depois que o país foi alvo de dois atentados em uma semana e ainda teve mortos entre as vítimas de Nice. Segundo Merkel, ela entende que pessoas agora se perguntam se estão seguras em áreas públicas. Mas insistiu que a polícia havia atuado de forma “fenomenal” e prometeu investigar o motivo do ataque. 

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