AP Photo/Pablo Martinez Monsivais
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Ataque de Orlando revive debate sobre venda de armas

Nos EUA, é mais difícil adotar um animal de estimação ou comprar remédio para gripe do que adquirir um fuzil de assalto de uso militar

Cláudia Trevisan ENVIADA ESPECIAL / ORLANDO, FLÓRIDA, O Estado de S. Paulo

19 Junho 2016 | 05h00

Com um fuzil militar nas mãos, Omar Mateen atingiu em poucos minutos 102 pessoas que estavam em uma casa noturna de Orlando na madrugada de domingo, das quais 49 morreram. Apesar do poder devastador da arma, integrantes do Partido Republicano evitam discutir a proibição da venda desse tipo de fuzil à população civil proposta pelo presidente Barack Obama.

Segundo a revista Mother Jones, houve oito ataques a tiros nos EUA no último ano. Fuzis de estilo militar foram usados em sete deles. Ecoando o bordão do lobby da Associação Nacional do Rifle (NRA), líderes republicanos repetem que o que mata não são as armas, mas as pessoas que as carregam. 

Mesmo sob impacto do maior ataque a tiros da história dos Estados Unidos, há poucos indícios de que o país se moverá na direção de controles sobre a comercialização de armas. Democratas enfrentam dificuldade até mesmo para convencer seus colegas republicanos a aprovarem o veto à venda de revólveres, rifles e fuzis a pessoas que estão sob vigilância do FBI por suspeita de atividades terroristas. Na sexta-feira, os dois partidos tentavam chegar a um acordo para banir ao menos os que estão na relação dos que não podem embarcar em aviões.

Mas o ataque de Orlando chocou a opinião pública americana, o que pode ter efeito sobre o Congresso. Pesquisa divulgada pela rede CBS mostrou que 57% dos entrevistados apoiam a proibição da venda dos fuzis semiautomáticos, que são armas mais adequadas para guerra do que para a defesa pessoal. O porcentual era de 44% em dezembro.

O veto não seria algo inédito. A produção de fuzis de assalto para a população civil foi proibida em 1994, depois de uma série de ataques a tiros cometidos com esse tipo de armamento. No mais grave deles, oito pessoas morreram. 

Em contraste com a polarização em torno do assunto que marca o debate atual, a proibição de 1994 foi aprovada com apoio de parlamentares de ambos os partidos. Em maio daquele ano, os ex-presidentes republicanos Ronald Reagan e Gerald Ford e o democrata Jimmy Carter enviaram carta à Câmara dos Deputados na qual defenderam a proposta. Aprovada para um período inicial de dez anos, a lei não foi prorrogada em 2014.

Comprar um fuzil militar nos EUA é mais fácil do que uma longa lista de atividades triviais. Quem quiser ter um revólver na Flórida deve esperar três dias antes de levá-lo para casa. O prazo permite uma checagem mais detalhada de antecedentes criminais. Não há nenhum período semelhante para um fuzil de assalto, que pode ser retirado da loja depois que o comprador responder a um questionário sobre eventuais delitos e passar em um rápido teste de sanidade mental.

Existem mais restrições nos EUA para a obtenção de remédios para gripe do que de armas de estilo militar. Relação elaborada pela CNN aponta outras atividades mais controladas do que compra de fuzis de assalto, entre as quais a concessão de carteira de motorista e a adoção de um animal de estimação.

A exemplo do debate em torno do aborto ou do casamento gay, a discussão sobre armas é tingida pela identidade partidária e a cada vez mais acentuada polarização política. Diretor artístico do maior clube LGBT de Orlando, o Parliament House, Tim Evanicki viu de perto o impacto das visões extremas que cercam a questão.

No dia seguinte ao massacre, ele defendeu em sua página no Facebook a proibição da venda de fuzis semiautomáticos. Em poucos minutos, ele recebeu o telefonema da mãe de uma suas alunas de canto. Do outro lado da linha, ela comunicou que a filha não iria mais às aulas em razão de sua posição “antiarmas”.

Sarah Raya, que faz mestrado em saúde mental, foi uma das mais de 20 mil pessoas que doaram sangue para as vítimas do atirador de Orlando. Apesar da proximidade do massacre, ela é contra restrições à venda de fuzis. “As armas fazem parte do nosso estilo de vida”, afirmou Raya, que tem permissão para portar revólveres. “Vivo em um país no qual sou capaz de me defender, se isso for necessário.”

Mas muitos dos que visitaram o memorial improvisado em homenagem às vítimas de Orlando eram a favor de um maior controle. “Alguma coisa precisa ser feita em relação aos fuzis de assalto. Do contrário, isso vai acontecer de novo”, disse Dale Hanson.  

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