Fechamento de aeroporto de Cabul após atentado deixa milhares presos no Afeganistão

Fechamento de aeroporto de Cabul após atentado deixa milhares presos no Afeganistão

Um dia após o ataque, uma multidão tentou mais uma vez chegar ao aeroporto, em desespero para fugir do Taleban antes do prazo de saída das tropas dos EUA, na terça-feira

Redação, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2021 | 20h42

CABUL - Baixada a poeira do atentado de quinta-feira no aeroporto de Cabul, os números começaram a contar a história do pior ataque sofrido por forças dos EUA no Afeganistão nos últimos 20 anos. O total de mortos subiu para 170, incluindo 13 soldados americanos. Um dia após o ataque, uma multidão tentou mais uma vez chegar ao aeroporto, em desespero para fugir do Taleban antes do prazo de saída das tropas dos EUA, na terça-feira.

Segundo a porta-voz do governo americano, Jen Psaki, informações de inteligência alertam que “outro ataque terrorista em Cabul é provável”. “A ameaça é contínua e ativa. Nossas tropas ainda estão em perigo”, disse Psaki. No aeroporto e nas ruas da capital, soldados dos EUA e combatentes do Taleban tentaram exercer o pouco de autoridade que restou. 

Militantes com rifles Kalashnikov mantiveram a multidão longe dos portões de entrada do aeroporto, guardando postos de controle com caminhões e pelo menos um Humvee blindado. No início da tarde, os americanos retomaram os voos de retirada. A Casa Branca confirmou que 12,5 mil pessoas foram resgatadas do Afeganistão nas últimas 24 horas, apesar do atentado. Em agosto, 111 mil foram retirados do país. 

No decorrer do dia, a circulação no aeroporto foi limitada. Nos portões sul e leste, guardas do Taleban disseram a um repórter do New York Times que ninguém tinha permissão para se aproximar e todos os portões de entrada estavam fechados. Cerca de 5,4 mil pessoas permaneciam lá dentro esperando a retirada, de acordo com o Pentágono.

Ontem, os militares americanos retificaram algumas informações sobre o ataque. O general William Taylor, do Estado-Maior Conjunto, disse que havia sido um homem-bomba – e não dois. “Não acreditamos que tenha ocorrido uma segunda explosão no Hotel Baron ou próximo a ele”, disse – embora muitas testemunhas relataram ter ouvido duas explosões.

À medida que se aproxima o prazo final para a retirada das tropas dos EUA, no dia 31, aumenta o desespero de milhares de afegãos que querem fugir do Taleban – uma missão cada vez mais difícil. O medo generalizado é de vingança contra os que trabalhavam no governo anterior e colaboravam com as forças ocidentais – apesar das promessas de anistia feitas pelo novo regime. 

Os relatos, no entanto, são desanimadores. Ontem, combatentes do Taleban continuaram procurando ex-funcionários do governo. “Esta é a oitava vez que eles vêm à minha casa em Cabul, procurando por mim. Levaram o meu carro e ameaçaram meus filhos”, disse Halim Fidai, que foi conselheiro e governador da Província de Khost. 

Ahmadullah Waseq, um dos dirigentes do Taleban, negou a perseguição e disse que casos como o de Fidai seriam investigados. Bismillah Taban, que foi investigador do Ministério do Interior, disse ao New York Times que vem sendo caçado pelo Taleban. Ele conta que um assistente seu foi preso e torturado, forçado a revelar seu paradeiro. “Não acredito na promessa de anistia. Eles mataram um dos meus colegas depois que assumiram o governo. Eles vão me matar também, se me encontrarem”, disse.

Levados por esses relatos, o pânico tomou conta de milhares de ex-funcionários públicos, intérpretes, ativistas e jornalistas. Muitos estão presos e sem esperanças de deixar o país. O governo britânico afirmou ter retirado 14 mil pessoas, mas 1,1 mil ficaram para trás. A Alemanha resgatou 4 mil dos 10 mil que pretendia tirar do Afeganistão. A França retirou 2,5 mil, deixando mil colaboradores no Afeganistão. “Deixamos para trás pessoas que confiaram em nosso país. É um desastre”, disse a senadora francesa Nathalie Goulet. “Temos sangue em nossas mãos.”

Os governos europeus argumentam que não tiveram saída depois que os EUA decidiram manter o prazo de retirada. “A humanidade se desintegrou”, afirmou ao Washington Post um funcionário de uma ONG local contratada pelo governo alemão, que pediu para não ser identificado. “Eu me sinto sozinho.”

Com o aeroporto fechado, ontem muitos tentaram sair pela fronteira com o Paquistão – apesar do alerta do governo paquistanês de que não aceitaria refugiados. De 4 mil a 8 mil pessoas cruzam a fronteira em tempos normais. Desde que o Taleban tomou Cabul, o número de afegãos que entram no Paquistão triplicou, segundo autoridades paquistanesas. 

O Alto-Comissariado da ONU para os Refugiados (Acnur) disse ontem que estima uma fuga de 500 mil pessoas do Afeganistão. “Estamos nos preparando para meio milhão de refugiados, na pior das hipóteses”, disse Kelly Clements, vice-comissário do Acnur.

O atentado no aeroporto de Cabul se transformou também na maior crise de presidência de Joe Biden. Alguns deputados republicanos pediram a demissão do secretário de Estado, Antony Blinken, e o impeachment do presidente – cartadas que a maioria democrata na Câmara dos Deputados não teria dificuldade em barrar.

No entanto, Biden vem enfrentando críticas também de aliados. Leon Panetta, ex-secretário de Defesa e ex-diretor da CIA durante o governo de Barack Obama, disse que “o pior pesadelo” de Biden foi perder os 13 soldados em Cabul. “Deve ter sido o pior dia de seu governo”, afirmou Panetta, em entrevista à CNN.

Outros preferiram pedir – mais uma vez – que Biden ignore o prazo de retirada de 31 de agosto. “O prazo tem que ser estendido para terminar o trabalho de retirada”, afirmou o deputado democrata Jason Crow, um veterano da Guerra no Afeganistão./ NYT e WP 

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