REUTERS/Charles Platiau
REUTERS/Charles Platiau

Ataque indica que rede terrorista é mais ampla e sofisticada que Europa imaginava

Inteligência iraquiana aponta que ataque foi uma resposta à prisão de Abdesalam; mas rapidez de um ataque depois da prisão de terrorista, na última sexta, choca autoridades e revela fragilidade dos serviços de inteligência

Jamil Chade - CORRESPONDENTE / GENEBRA , O Estado de S. Paulo

22 de março de 2016 | 16h52

"Vai ser uma longa guerra". Foi assim que o presidente da França, François Hollande, descreveu o combate ao terror, horas depois de a Europa ser alvo de mais um ataque, desta vez na Bélgica. Para ele, era "toda a Europa" que estava sob ataque e uma resposta exigirá uma "ação global". 

Mas o que impressionou investigadores, serviços de inteligência e governos foi a rapidez pela qual uma capital europeia foi atingida, depois da prisão na última sexta-feira de Saleh Abdelsalam, um dos suspeitos de ter feito parte dos ataques em Paris em novembro e estava foragido. 

Se no fim de semana o governo belga comemorou sua prisão, ontem o tom das autoridades era de consternação. O que sua prisão e depois os ataques revelaram é uma rede de grupos terroristas pela Europa bem maior do que se imaginava. Se células importantes estão nas periferias de Bruxelas, elas têm aliados e simpatizantes espalhados pelo continente.  

A infiltração do Estado Islâmico (EI) também seria mais sofisticada que governos imaginavam, com uma capacidade de reagir e membros dispostos a serem convocados para a ação em um curto prazo de tempo.

Ontem, os investigadores apuravam duas teses. Uma delas é a de que Abdelsalam iria entregar à polícia seus parceiros e locais de armas e, portanto, os grupos do EI decidiram agir antes. Outra suspeita é a de que a rede de terrorista queria mandar um recado claro às autridades de que, mesmo se prenderem uma pessoa, diversos outros estão dispostos a agir.

Fontes da inteligência do Iraque indicaram que o EI estava planejando ataques terroristas na Europa por pelo menos 2 meses cujos alvos seriam "aeroportos e estações de trem". Segundo a Associated Press, « Bruxelas não era parte do plano do EI naquele momento". 

Mas os militantes do EI teriam transferido a operação para a capital belga "em razão da prisão de Salah Abdeslam". De acordo com a agência de notícias, outros três terroristas suicidas ainda executarão mais um ataque. Para as autoridades em Londres, um novo ataque é ainda "altamente provável". 

A constatação é ainda de que o sistema de segurança continua vulnerável e a coleta de informações não tem conseguido parar os atentados. Foram 3 grandes ataques em 14 meses, com mais de 160 mortos. Desde os ataques em Paris em novembro, organizados a partir de Bruxelas, um total de 54 pessoas foram detidas. Onze ainda estão presas. 

Nos últimos meses, o terrorismo mudou as prioridades dos governos europeus, manteve sociedades e autoridades em estado de alerta. Mas quando o barulho das ambulâncias voltou a fazer parte de uma capital europeia, a constatação também foi a de que continuam as falhas nos sistemas de informação da Europa e na falta de cooperação no compartilhamento de inteligência.

Nos momentos após os ataques, policiais teriam levado tempo para organizar uma resposta e nem mesmo as reuniões de emergência chegavam a uma constatação do que havia ocorrido. 

"O que temíamos aconteceu", lamentou o primeiro-ministro belga, Charles Michel. "Vivemos um momento sombrio e pedimos solidariedade", afirmou. "Estamos vivendo um momento difícil e precisamos de união. Mas estamos determinados a lidar com situação", insistiu. Redes de televisão da bélgica chegaram a informar que a família real havia sido retirada do local onde estava.  

O ataque também mudou o perfil de Bruxelas. Se a cidade descobriu a partir de 2014 que era um dos principais entrepostos do jihadismo que organizava ataques pela Europa, agora era a própria capital que era atingida por um atentado. Com pelo menos 500 pessoas tendo participado da jihad no Iraque e na Síria, a Bélgica tem hoje o maior contingente per capta em um país europeu de suspeitos, o que levou políticos a descrevê-la como "Belgistão".

Reagindo aos ataques, porém, grupos nacionalistas já fizeram questão de reforçar suas posições de apelo ao controle das fronteiras. O Ukip, partido inglês, atacou as políticas de imigração da Europa. "Os ataques mostram que o livre movimento pelas fronteiras é uma ameaça para a nossa segurança", indicou Mike Hookem. 

Falando para a Fox News, Donald Trump insistiu que os governos precisam "fechar nossas fronteiras". O mesmo discurso foi usado por Marine Le Pen, presidente da Frente Nacional, na França. "Vamos pagar caro por essa abertura. Peço a reinstalação imediata das fronteiras nacionais na UE", disse. 

Hollande, porém, pediu que os governos sejam "lúcidos e calmos". Ontem, um das imagens que marcou o dia foi quando Federica Mogherini, a chefe da diplomacia europeia, desabou em um choro ao fazer um discurso sobre a situação da guerra contra o terror.

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