Ataque infame

O massacre de Nice marca o início de uma nova forma de guerra que a jihad trava com o Ocidente

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

16 Julho 2016 | 05h00

Um novo ataque infame na noite de quinta-feira. Em Nice, sul da França. Alvo magnífico. Nice é a capital da beleza, da meiguice e do prazer, que se estende languidamente pela costa mediterrânea, mais ou menos como o Rio de Janeiro reflete sua beleza nas águas do Atlântico.

Foi em 14 julho, dia de festa nacional. Sobre as areias e ao longo do golfo, a multidão despreocupada contemplava os fogos de artifício no negro do céu. As crianças riam, gritavam de alegria, quando o enorme caminhão acelerou contra a multidão por uma extensão de 1.700 metros. O motorista dirigia o caminhão em zigue-zague para matar mais mulheres, homens e crianças. Ele foi abatido, mas depois de ter causado 84 mortes.

A França é o lugar preferido nos sonhos sórdidos dos jihadistas. Há um ano e meio, fanáticos atacaram a redação do jornal Charlie Hebdo, contra a publicação de caricaturas (aliás, muito feias) de Maomé. No fim de 2015, comandos terroristas metralharam cafés, estádios e se explodiram para matar mais inocentes.

Agora, um caminhão assassina as felizes crianças de Nice na noite da festa nacional de uma França que tem por divisa “liberdade, igualdade, fraternidade”. Os jornais falam de progressão dos atos de horror. É apenas um modo de se expressar, porque na infâmia não há nuances. Ela é absoluta. 

O massacre do Charlie Hebdo, os atentados de novembro, como também, mais longe no tempo, o ataque contra as torres gêmeas de Nova York, tudo isso foi tão ignóbil quanto o caminhão letal de Nice. A ignomínia não tem grau. De um só golpe a excelência é atingida. É o caso dos jihadistas. No entanto, eles conseguem modificar de tempos em tempos sua tática.

O atacante de Nice é um jihadista, embora até o momento nem a Al-Qaeda nem o Estado Islâmico reivindicaram o ato. Sem dúvida, deve ser sido cometido por um lobo solitário. Lembremos que, há algumas semanas, o EI exortou todos seus fiéis espalhados pelo mundo a realizarem, sozinhos, operações de morte. E, segundo o grupo, isso não é tão complicado. Basta investir contra uma multidão com um carro, um caminhão e morrer.

É neste sentido que Nice marca uma nova etapa. Nos seus feudos no Iraque, Síria e na Líbia, o EI está sob pressão. Os bombardeios russos, americanos, franceses e britânicos, juntamente com as operações de tropas locais e os temíveis “conselheiros” americanos e franceses, expulsam os assassinos dos territórios em que se estabeleceram.

Podemos dizer que o Estado Islâmico está derrotado? Claro que não. O que ocorre é simplesmente o que se temia: expulsar o EI de suas propriedades significa disseminá-lo, multiplicar a peste. O massacre de Nice marca o início de uma nova forma de guerra que a jihad trava com o Ocidente. Claro que é necessário e salutar atacar o Estado Islâmico na Síria, no Iraque, na Líbia. Mas serão necessários longos anos para expurgar o veneno da terra.

Cada vez que um ato horrível como este ocorre, o mundo inteiro é tomado pelo asco. O papa, chefes de Estado, ministros, deputados, intelectuais, jornalistas, todos manifestaram sua indignação, denunciaram a barbárie.

Como agir diferente? No entanto, esses brados de cólera e repugnância não só de nada servem, mas são recebidos pelos assassinos com prazer, como elogios. Se os chamamos de bárbaros, eles se orgulham de ser bárbaros. São cruéis? Claro que são! E se vangloriam disso porque sua crueldade está a serviço do “bem”, ela é o “bem”. 

Eles vivem em um mundo onde todos os valores se perderam. Como os gnósticos dos tempos primitivos, acham que o “mal” tomou o lugar do “bem” e o “bem” hoje é o “mal”. O diabo e o bom Deus trocaram seus papéis e moradias. Como resultado, se o Ocidente, que consideram o “mal”, afirma que eles praticam maldades, concluem que estão fazendo o “bem”. Ser denunciado pelo Ocidente, que obedece a satã, é reconfortante. Prova que estão do lado de Deus.

É uma inversão dos valores. A troca de Deus pelo diabo, a fascinação pela morte, a sua e a dos outros. Poucos Exércitos neste mundo dispõem de armas tão fulminantes. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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