AFP
AFP

Ataque na França expõe guerra civil global islâmica

Combate ao radicalismo de militantes de grupos como Al-Qaeda e Estado Islâmico será, mais uma vez, o desafio do ano, dizem analistas

RENATA TRANCHES, O Estado de S.Paulo

01 de fevereiro de 2015 | 02h03

Os ataques em Paris intensificaram uma das frentes do que analistas consideram ser uma guerra civil islâmica global. Os episódios, na primeira semana do ano, mostraram que a luta contra o radicalismo islâmico, personificado em grupos como o Estado Islâmico (EI) e a Al-Qaeda, mais uma vez, estará entre uma das mais importantes crises de 2015, segundo especialistas ouvidos pelo Estado.

O analista do Wilson Center e do Instituto para o Diálogo Global Francis Kornegay explica que a Europa tornou-se um dos campos da batalha que o Islã trava internamente entre suas diferentes correntes e visões. O epicentro desse conflito está no Oriente Médio, Sul da Ásia, Norte do Cáucaso e se estende às diásporas muçulmanas no Ocidente.

"Os ataques contra ocidentais são parte e uma parcela de uma dinâmica interna dessa guerra civil dentro do Islã entre suas diferentes tendências", reitera. Segunda maior religião do mundo, o Islã tem 1,6 bilhão de seguidores. Divergências sobre a sucessão após a morte do profeta Maomé, em 632, deixou profundas divisões na religião que separaram os muçulmanos entre sunitas, 85% dos fiéis, e xiitas, 15%.

Segundo Kornegay, esse atual conflito interno ocorre, primeiro, dentro do próprio sunismo. As divergências se dão entre os moderados, como os devotos do sufismo, por exemplo, e os fundamentalistas, representados por salafistas e wahabistas, que fazem uma interpretação radical da sharia, a lei islâmica. A Al-Qaeda e o Estado Islâmico seguem, respectivamente, essas duas correntes conservadoras.

Apesar das discordâncias, todas as escolas do sunismo concordam em um ponto central: a autoridade se baseia no Alcorão e nas tradições de Maomé, sem interpretações. Com isso, explica Kornegay, está a raiz do conflito com os xiitas, que acreditam que Deus sempre designa um guia, primeiro entre os descendentes diretos de Ali, o genro de Maomé, conhecidos como Imãs, e, depois, os aiatolás para guiá-los nas interpretações dos ensinamentos do profeta.

Alvos. As diferenças vão além da religião e ditam os pilares para os principais conflitos políticos e militares modernos entre as nações muçulmanas, fazendo dos fiéis suas maiores vítimas. "Nesse contexto, a Síria pode ser considerada a 'Guerra Civil Espanhola' dessa luta titânica sobre o futuro do Islã", opina Kornegay, lembrando que assim como ocorreu com o conflito espanhol, a guerra síria envolve todos os elementos ideológicos dessa batalha global.

Dean Alexander, analista da Western Illinois University, explica que, ao mesmo tempo, os participantes dessa "jihad global" agrava o conflito elegendo locais e civis de várias partes do mundo como "alvos legítimos". "Eles estão vinculados a combatentes cada vez melhor treinados, ligados entre si por grupos ou ideologia", afirma.

Na sua opinião, o que o mundo viu na França foi um efeito, direto ou indireto, de uma contínua degeneração do conflito no Iraque e na Síria. "Vimos episódios em Paris, Ottawa, Sydney, Nova York, entre outros.

Além disso, grupos jihadistas com capacidade variada estão ativos na África, desde o Mali e a Somália até Líbia e Nigéria", avalia Alexander. "O conflito mais importante de 2015, assim como foi em 2014, será o esforço de combate da coalizão de 60 nações contra o Estado Islâmico."

O "reforço" nas ações no fronte europeu jihadista já tem um reflexo político imediato no continente. Trata-se de uma mutação das políticas europeias para um padrão, segundo Kornegay, xenófobo e anti-União Europeia convergindo com agendas fragmentadoras de direita, com o possível apoio da Rússia, que também tem interesse na desintegração do bloco. "Os ataques na França têm de ser vistos como combustível para essa matriz."

Petróleo. Outra preocupação herdada de 2014, a queda do preço do petróleo, que tem impacto em diferentes cenários no mundo, está também interligada à questão do jihadismo global. Alexander afirma que uma das explicações possíveis para que a Arábia Saudita esteja ajustando e insistindo na redução do preço do petróleo seria, na verdade, uma estratégia para sufocar uma das capacidades de financiamento do Estado Islâmico. "Um das maneiras do EI de gerar lucros é contrabandeando o petróleo."

Na outra ponta, países que atuam no combate ao grupo e sofrem com seu avanço, como o Iraque, vê a queda nas receitas com o petróleo prejudicar o financiamento de suas ações.

Na primeira reunião do ano da coalizão internacional sobre a estratégia de combate ao Estado Islâmico, o primeiro-ministro do Iraque, Haider al-Abadi, manifestou temor de que menores receitas do petróleo possam prejudicar a campanha militar de seu país contra os militantes. A economia e o orçamento do Iraque dependem 85% das exportações da commodity.

Tudo o que sabemos sobre:
O Estado de S. Paulo

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.