Ataque no Iraque mata 45 milicianos usados pelos EUA contra a Al-Qaeda

BAGDÁ

, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2010 | 00h00

Um ataque suicida matou ontem 45 integrantes de uma milícia sunita treinada pelos EUA para combater a Al-Qaeda no Iraque. O atentado, o maior em dois meses, ocorreu a 25 quilômetros de Bagdá, na base militar de Radwaniya, onde os chamados Filhos do Iraque faziam fila para receber salários atrasados, em meio a uma crise institucional.

"Havia umas 85 pessoas em três filas na frente do portão principal da base, quando um homem se aproximou. Um dos soldados tentou pará-lo, ele detonou a bomba", disse um dos sobreviventes, Tayseer Mehsen, de 20 anos, atendido no hospital Mahmoudiyah, para onde foram levadas dezenas de feridos.

O grupo de milicianos, considerado chave na diminuição da violência sectária no país, tornou-se vulnerável com a saída das tropas americanas e a indefinição sobre quem governará o país, quatro meses após as eleições. O atual premiê, Nouri al Maliki, e o anterior. Iyad Alawi, dizem ser a melhor opção. Os EUA pressionam pela formação de um governo de coalizão, sob o argumento de que a falta de liderança facilita atentados.

Ataques contra a polícia e o Exército iraquiano tem sido rotineiros, mas os milicianos sunitas correm especial risco porque até 2007 apoiavam ou protegiam a Al-Qaeda em sua área de influência, no centro e no oeste do país."O governo alertou os Filhos do Iraque para ter cuidado, especialmente em Radwaniya (antigo reduto da Al-Qaeda)", argumentou o general Mudher al-Mula, responsável por integrar a milícia às forças de segurança. Depois de uma forte pressão dos americanos, o governo concordou em incorporar 20% dos milicianos às suas forças. Os demais teriam cargos burocráticos no governo.

O líder dos milicianos na região, Hamid Obeed Abdullah, insinuou que o atentado teve colaboração de membros das forças do governo. "Recebemos no sábado informação oficial para receber o salário na manhã de domingo. Na hora da explosão, os postos de controle estavam vazios", disse Abdullah. "Avisei os americanos que isso ocorreria. Hoje não há 10% de nós trabalhando. Todos estão escondidos ou fugindo", completou Abdullah.

Os Filhos do Iraque chegaram a ter 130.000 integrantes - hoje contam com 71.000 membros - e foram decisivos no enfraquecimento da Al-Qaeda (mais informações nesta página). A diminuição da violência entre grupos étnicos é considerada uma das grandes vitórias do general David Petraeus, chefe das tropas da Otan que pretende implementar no Afeganistão a estratégia de organizar milícias locais.

Horas depois do atentado em Radwaniya, outro suicida detonou seus explosivos em um quartel dos milicianos em Qaim, a 340 quilômetros a oeste de Bagdá, na fronteira com a Síria. Três pessoas morreram e seis ficaram feridas. Embora tivessem como alvo o mesmo grupo, os dois ataques não foram relacionados pelas forças de segurança iraquianas.

Há uma semana, o comandante da tropas americanas no Iraque, Ray Odierno, alertou que atentados seriam intensificados para criar a percepção de que "os americanos estão batendo humilhados em retirada". Há 74.000 soldados americanos no país. Até o final de agosto, restarão 50.000. Ao atacar os integrantes das milícias locais, a Al-Qaeda também mandaria a mensagem de que a estratégia de arregimentar combatentes locais fracassou no Iraque e os que vierem a apoiar os americanos em outros lugares morrerão. / AP e REUTERS

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