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Ataque que tinha como alvo novo governo de união do Iêmen mata 26 em aeroporto

Governo internacionalmente reconhecido, cujos membros escaparam ilesos das explosões, atribuiu autoria da ação em Áden a insurgentes houthis, com quem está em guerra desde o fim de 2014; eles negaram envolvimento

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2020 | 16h50

ÁDEN - Ao menos 26 pessoas foram mortas e 50 ficaram feridas nesta quarta-feira, 30, em um ataque que causou três explosões no aeroporto de Áden, no Iêmen, no momento da chegada de ministros do recém-formado governo de união nacional, que conta em parte com integrantes separatistas do sul do país.

O governo iemenita internacionalmente reconhecido, cujos membros escaparam ilesos das explosões, atribuiu a autoria da ação a insurgentes houthis, com quem está em guerra desde o fim de 2014. Porém, eles negaram ter participado do ato terrorista e prestaram solidariedade às vítimas, além de terem condenado o que chamaram de "facções mercenárias" pelo atentado.

Testemunhas disseram à agência EFE que duas das explosões aconteceram no terminal principal, e a terceira na entrada do aeroporto, quando um avião que trazia de Riad, na Arábia Saudita, os ministros do novo governo formado em 18 de dezembro com a participação dos separatistas pousava em Áden.

Havia um grande número de jornalistas e agentes de segurança no aeroporto devido à chegada dos ministros, e por isso o ataque foi gravado e exibido por vários canais de televisão.

As imagens mostram que as explosões ocorreram quando os ministros estavam desembarcando do avião e o que parece ser um míssil atingindo o aeroporto e causando uma das explosões.

Os operadores de câmera registraram então colunas de fumaça preta vinda do terminal do aeroporto, um grande buraco no asfalto causado por uma das explosões e várias pessoas deitadas no chão na entrada do terminal.

Segundo a agência France Presse, sons de explosões e disparos foram ouvidos antes da espessa fumaça preta sair do aeroporto, enquanto caíam os escombros, o que gerou pânico entre os presentes no local. "Estamos bem", tuitou o novo ministro das Relações Exteriores, Ahmed ben Mubarak.

Condenação 

O Ministério do Interior do Iêmen disse em comunicado que está trabalhando com a coalizão internacional de países árabes que apoiam o governo em sua luta contra os houthis "para determinar o tipo desses projéteis e para saber a extensão dos danos causados pelo impacto".

O primeiro-ministro Maeen Abdelmalik Saeed condenou no Twitter "o covarde ato terrorista" e o considerou "parte da guerra travada contra o Estado iemenita e seu grande povo".

O ministro da Informação do Iêmen, Muammar al-Eryani, acusou diretamente os rebeldes houthis e disse que o que aconteceu não impediria os membros do governo de cumprir seu "dever nacional", pois seu "sangue e alma não são mais preciosos do que o dos iemenitas".

Houghis negam envolvimento

Entretanto, o governo liderado por houthis, que controla parte do oeste e norte do país, incluindo a capital, Sanaa, de onde expulsou o presidente Abdo Rabbo Mansour Hadi seis anos atrás, a única reação veio do vice-ministro das Relações Exteriores, Hussein al Ezzat, que negou participação no ataque.

"Somos solidários com as famílias das vítimas e condenamos fortemente todas as facções mercenárias por não se sentirem responsáveis pelas vidas de pessoas inocentes, esperando que elas resolvam suas contas longe das instalações civis e públicas", disse ele no Twitter.

Por sua vez, o enviado especial da ONU para o Iêmen, Martin Griffiths, também condenou o ataque e lamentou as mortes e ferimentos sofridos por "muitos civis inocentes".

"Este ato inaceitável de violência é uma lembrança trágica da importância do rápido retorno do Iêmen ao caminho da paz", declarou.

O governo dos Emirados Árabes Unidos, que apoia os separatistas do sul do Iêmen, também condenou o ataque.

A guerra do Iêmen coloca os houthis, um movimento xiita apoiado pelo Irã, contra o governo internacionalmente reconhecido de Mansour Hadi, que é apoiado por uma coalizão de países árabes liderada pela Arábia Saudita, mas também teve de enfrentar separatistas do chamado Conselho de Transição do Sul (CTS), apoiado pelos Emirados Árabes Unidos.

O governo legítimo e o CTS assinaram um acordo em novembro de 2019 para um cessar-fogo e a formação de um governo conjunto, mas seu cumprimento foi adiado até 18 de agosto, quando o presidente, exilado na Arábia Saudita, anunciou a formação de um governo que inclui 5 ministros (de um total de 24) dos separatistas. 

Crise humanitária

A guerra no Iêmen afundou este país, o mais pobre da Península Arábica, na pior crise humanitária do mundo segundo a ONU, com uma população à beira da fome e ameaçada por epidemias.

A formação do novo governo e sua chegada a Áden ocorrem três semanas antes da posse do presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, que é muito crítico da Arábia Saudita. O futuro anfitrião da Casa Branca faz muitas críticas a Riad, no contexto das frequentes polêmicas sobre as violações de direitos humanos no reino e o desastre humanitário no Iêmen./EFE e AFP 

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