EFE/EPA/SAUDI PRESS AGENCY
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Ataques acrescentam tensão à crise entre sunitas e xiitas

Irã e Arábia Saudita acusam-se mutuamente de apoiar o terrorismo

O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2017 | 05h00

Os primeiros atentados em Teerã em mais de uma década ocorrem duas semanas depois de Trump prometer isolar o Irã, com a Arábia Saudita e aliados. O Irã considerou a ameaça, feita numa reunião em Riad, parte de um plano do americano para vender armas aos sauditas. Segundo muitos iranianos, o Estado Islâmico (EI) está inseparavelmente ligado ao reino saudita.

Os dois países são líderes dos lados opostos da divisão do Islã em xiitas e sunitas. O Irã tem conselheiros militares no Iraque e na Síria e controla e financia milícias nesses países e no Líbano. Também tem alguma influência sobre os houthis que combatem o governo do Iêmen, além de defender os xiitas de Bahrein, grupo majoritário que, segundo o Irã, é reprimido pela monarquia sunita do país.

O rei Salman, da Arábia Saudita, acusa o Irã de “liderar o terrorismo global”. Funcionários sauditas dizem que Teerã planeja controlar a região. A Arábia Saudita, um reino autocrata, também se opõe à ideologia política do Irã, que tem um religioso na liderança suprema, mas tem também um presidente, um Parlamento e câmaras municipais escolhidos em eleições das quais podem participar homens e mulheres.

Na manhã de ontem, horas antes dos ataques, o chanceler saudita, Adel al-Jubeir, afirmou que o Irã tinha de ser “punido” por sua interferência na região e chamou o país de “principal apoiador mundial do terrorismo”. O Irã, por sua vez, há muito acusa a Arábia Saudita de apoiar terroristas, afirmando que o reino favorece o surgimento de grupos sunitas extremistas como o EI e outros que atuam no Iraque e na Síria.

Depois de Egito, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e outros países cortarem laços como reino do Catar, rico em petróleo, citando como motivo o apoio do Catar ao Irã, Teerã apressou-se em preencher o vazio, propondo enviar alimentos e remédios ao país isolado. Outros iranianos, porém, questionaram a decisão de Teerã de sair em defesa do Catar. “Erramos ao procurar de repente estreitar os laços com o Catar”, disse Saeed Laylaz, economista ligado ao governo. “O país vem financiando grupos terroristas sunitas, do mesmo modo que a Arábia Saudita.”

Ataques terroristas no Irã têm sido algo relativamente raro, embora por muitos anos o país tenha sofrido uma dura série de atentados cometidos pelo grupo oposicionista armado Mujahedin-e-Khalk, organização islâmica marxista que por décadas foi financiada pelo ditador iraquiano Saddam Hussein. Em muitos dos ataques do Mujahedeen-e-Khalk, seus combatentes se suicidaram com cianureto ao se verem encurralados. Em 2012, o grupo saiu da lista de organizações terroristas dos EUA com o apoio de políticos republicanos conservadores.

Mokhtar Awad, pesquisador do programa de estudos sobre extremismo da Universidade George Washington, disse que os ataques em Teerã foram uma tentativa do EI de finalmente desmistificar uma das bandeiras usadas contra ele nos círculos jihadistas: sua suposta incapacidade de atacar o Irã.

“Eles são ridicularizados por isso há muito tempo”, disse Awad. “Essa ação vai ajudá-los a sensibilizar uma ampla faixa de salafistas e jihadistas que a partir de agora passariam a ver o EI como genuíno adversário dos inimigos do Islã.” Awad disse que os ataques também teriam sido motivados pela necessidade do EI de triunfar em algum lugar novo para levantar o moral das forças, em baixa com os golpes sofridos por suas bases no Iraque, na Líbia e na Síria. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

 

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