Ataques aéreos não bastam

Para combater grupos como Al-Qaeda e EI, é preciso mais do que bombardeios cirúrgicos

GREG, MILLER, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2015 | 02h02

Em ataques distintos contra líderes da Al-Qaeda, os EUA demonstraram até que ponto aperfeiçoaram sua capacidade de descobrir os suspeitos de terrorismo mais procurados em alguns dos redutos mais caóticos do mundo - e de atacá-los pelo ar.

Mas a persistente difusão da ideologia da Al-Qaeda e o surgimento de ramificações como o Estado Islâmico (EI) destacaram as limitações da estratégia americana de lançar ataques cirúrgicos.

Funcionários do governo confirmaram que Nadir al-Wuhayshi, líder da Al-Qaeda no Iêmen, foi morto por um míssil disparado por um drone da CIA. O anúncio foi feito um dia depois de militares americanos informarem que um ex-agente da Al-Qaeda na Líbia teria sido morto num bombardeio por caças americanos.

Membros do governo Barack Obama alardearam o possível impacto das operações. O porta-voz da Casa Branca, Ned Price, afirmou que a morte de Wuhayshi "elimina um dos líderes terroristas mais experientes e permite que cheguemos mais perto da derrota desses grupos".

Mas não está claro até que ponto os EUA chegaram mais perto. Atualmente, funcionários e especialistas da área de contraterrorismo dos EUA consideram a destruição da Al-Qaeda e sua ramificações uma meta mais distante do que em qualquer outro momento desde o 11 de Setembro.

Grupos terroristas aproveitaram-se do tumulto político no Oriente Médio para dar grandes passos no recrutamento e para estender sua influência na região. Nos países em que ocorreram os mais recentes ataques americanos, Iêmen e Líbia, o colapso dos governos centrais favoreceu o florescimento de elementos radicais islâmicos.

Mesmo sem sua presença no território ou a existência de parceiros nesses países, os EUA conseguiram preservar seu poder letal. Mas quanto à mudança sofrida pelas expectativas após tais operações, autoridades e especialistas americanos disseram que os ataques poderão ser não apenas vantajosos para grupos em ascensão, como o EI, mas também destruidores para a Al-Qaeda.

"A campanha de ataques cirúrgicos contra a liderança da Al-Qaeda reduziu a capacidade do grupo de chefiar o movimento terrorista global e ameaçar o Ocidente em comparação ao que acontecia no passado", afirmou Juan Zarate, ex- assessor de combate ao terrorismo do presidente George W. Bush.

Mas as mais recentes operações dos EUA "têm pouca relevância diante do que o EI vem realizando e sua expansão", disse Zarate. "Na realidade, as operações poderão fortalecê-lo no Iêmen, na Arábia Saudita e na Líbia", acrescentou.

Wuhayshi, um dos principais assessores de Osama bin Laden, fugiu de uma prisão no Iêmen em 2006 para formar uma afiliada da Al-Qaeda que acabaria eclipsando a organização como ameaça aos EUA. A Al-Qaeda na Península Arábica (AQAP) foi vinculada até mesmo ao atentado contra um avião que se seguia para Detroit em 2009, e aos ataques à revista satírica Charlie Hebdo em Paris, este ano.

Mokhtar Belmokhtar, líder jihadista na Líbia, foi membro da Al-Qaeda no Magreb Islâmico, afiliada da rede no Norte da África, que formou um grupo dissidente em 2012. No ano seguinte, ele liderou um cerco a um complexo para a produção de gás na Argélia, que resultou na morte de quase 40 pessoas.

Os ataques representam um considerável golpe contra importantes alvos da Al-Qaeda, desde o assassinato de Abu Musab al-Zarqawi no Iraque, em 2006, incluindo as mortes de Bin Laden e Anwar al-Awlaki, em 2011.

Todos esses golpes foram considerados potencialmente fatais para as organizações terroristas, que, entretanto, conseguiram se reagrupar.

Em entrevistas, cidadãos iemenitas do distrito em que Wuhayshi foi morto disseram que tem havido indicações de atividade do EI na região. Eles se mostraram preocupados com a possibilidade de que o grupo agora se sinta encorajado.

Seth Jones, analista de terrorismo da Rand Corp., afirmou que a morte de Wuhayshi deve "ser analisada no contexto da luta entre a Al-Qaeda e o Estado Islâmico pela liderança do movimento salafista-jihadista como um todo". Antes mesmo da morte do líder da AQAP, disse Jones, o EI "havia cooptado algumas pequenas redes jihadistas locais no Iêmen".

O amplo uso da vigilância dos drones e dos ataques aéreos contra a Al-Qaeda e outros grupos terroristas pelo governo de Obama reflete, em parte, sua relutância em se envolver mais diretamente nos conflitos do Oriente Médio.

O colapso do governo do Iêmen obrigou a CIA a retirar agentes que trabalhavam com as agências de segurança iemenitas em operações de contraterrorismo. O governo do Iêmen foi deposto pelos rebeldes do grupo xiita Houthi, assim como por vários membros da Al-Qaeda. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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